Em Alta News

  • Brasileiro que doou medula óssea 3 vezes: “Super-herói da vida real”

    Brasileiro que doou medula óssea 3 vezes: “Super-herói da vida real”

    674 ações
    Compartilhar 270 Tweet 169
  • Super Viagra: cientistas testam pílula significativamente mais forte

    648 ações
    Compartilhar 259 Tweet 162
  • Bar LGBT inaugura “mamódromo” e promove suruba beneficente. Veja fotos

    618 ações
    Compartilhar 247 Tweet 155
  • Dúvida entre intercorrência e erro médico gera onda de ações judiciais

    610 ações
    Compartilhar 244 Tweet 153
  • Mulher descobre que desejo por alvejante em pó era causado por anemia

    600 ações
    Compartilhar 240 Tweet 150
  • Diaba Loira é morta a tiros após confronto entre CV e TCP. Veja vídeo

    594 ações
    Compartilhar 238 Tweet 149
JKreativ WordPress theme
  • Tendendo
  • Comentários
  • Mais recente
Brasileiro que doou medula óssea 3 vezes: “Super-herói da vida real”

Brasileiro que doou medula óssea 3 vezes: “Super-herói da vida real”

14 de julho de 2025
Super Viagra: cientistas testam pílula significativamente mais forte

Super Viagra: cientistas testam pílula significativamente mais forte

20 de julho de 2025
Bar LGBT inaugura “mamódromo” e promove suruba beneficente. Veja fotos

Bar LGBT inaugura “mamódromo” e promove suruba beneficente. Veja fotos

12 de janeiro de 2024
Dúvida entre intercorrência e erro médico gera onda de ações judiciais

Dúvida entre intercorrência e erro médico gera onda de ações judiciais

4 de outubro de 2025

Arena noivas: maior evento de noivas do Distrito Federal está de volta em sua 2ª edição

0

Sumo sacerdote nigeriano de Ifá participa de visita guiada ao Panteão Afro da Praça dos Orixás, em Brasília

0

Interdições no trânsito do Parque da Cidade neste domingo  

0

Em Ilhéus, ministro Renan Filho lança nesta segunda-feira (3) obras do lote 1F da Fiol

0
Após ser barrado em caso de advogada presa por difamação, delegado nega afastamento. Veja vídeo

Após ser barrado em caso de advogada presa por difamação, delegado nega afastamento. Veja vídeo

20 de abril de 2026
Após ser barrado em caso de advogada presa por difamação, delegado nega afastamento. Veja vídeo

Após ser barrado em caso de advogada presa por difamação, delegado nega afastamento. Veja vídeo

20 de abril de 2026
Explosão em poste causa apagão no DF e deixa moradores no escuro. Veja vídeo

Explosão em poste causa apagão no DF e deixa moradores no escuro. Veja vídeo

20 de abril de 2026
Explosão em poste causa apagão no DF e deixa moradores no escuro. Veja vídeo

Explosão em poste causa apagão no DF e deixa moradores no escuro. Veja vídeo

20 de abril de 2026
  • Tendendo
  • Comentários
  • Mais recente
Brasileiro que doou medula óssea 3 vezes: “Super-herói da vida real”

Brasileiro que doou medula óssea 3 vezes: “Super-herói da vida real”

14 de julho de 2025
Super Viagra: cientistas testam pílula significativamente mais forte

Super Viagra: cientistas testam pílula significativamente mais forte

20 de julho de 2025
Bar LGBT inaugura “mamódromo” e promove suruba beneficente. Veja fotos

Bar LGBT inaugura “mamódromo” e promove suruba beneficente. Veja fotos

12 de janeiro de 2024

Arena noivas: maior evento de noivas do Distrito Federal está de volta em sua 2ª edição

0

Sumo sacerdote nigeriano de Ifá participa de visita guiada ao Panteão Afro da Praça dos Orixás, em Brasília

0

Interdições no trânsito do Parque da Cidade neste domingo  

0
Após ser barrado em caso de advogada presa por difamação, delegado nega afastamento. Veja vídeo

Após ser barrado em caso de advogada presa por difamação, delegado nega afastamento. Veja vídeo

20 de abril de 2026
Após ser barrado em caso de advogada presa por difamação, delegado nega afastamento. Veja vídeo

Após ser barrado em caso de advogada presa por difamação, delegado nega afastamento. Veja vídeo

20 de abril de 2026
Explosão em poste causa apagão no DF e deixa moradores no escuro. Veja vídeo

Explosão em poste causa apagão no DF e deixa moradores no escuro. Veja vídeo

20 de abril de 2026
  • Quem Somos
  • Anuncie
  • Privacy & Policy
  • Contatos
20 de abril de 2026
  • Conecte-se
  • Registro
Capital Brasília
  • Home
  • Brasil
  • Brasília
  • Política
  • Saúde
  • Esportes
  • Entretenimento
  • Mundo
Nenhum resultado
Ver todos os resultados
Capital Brasília
Nenhum resultado
Ver todos os resultados
Home Brasil

O efeito borboleta

por Redação Capital Brasília
20 de abril de 2026
em Brasil, Política
245 8
0
O efeito borboleta
492
COMPARTILHAMENTO
1.4k
VIEWS
Share on FacebookShare on TwitterWhatsApp

Com o peso reagindo lentamente, mas a saúde ainda frágil, uma possibilidade antiga volta à mente: a cirurgia bariátrica. A escolha significaria também uma cadeia de consequências, físicas, emocionais e sociais, discutidas no episódio.

Ainda em Pernambuco, Ed reencontra figuras de seu passado profissional e como a experiência durante anos de reportagem influenciaram sua decisão. Entre relatos de quem passou pela experiência e a pressão por resultados imediatos, uma reflexão sobre o dilema da bariátrica e sobre como a decisão vai muito além da sala de cirurgia.

Confira abaixo o roteiro do episódio na íntegra:

[Eduarda Bagesteiro]: Além de eu não me sentir confortável em nenhuma roupa que eu vestia, nada me servia. Até que eu me vi usando apenas vestidos, tamanho XGG, que foi o que me sobrou. 

[Ed Wanderley]: Eduarda é uma das 80 mil pessoas que se submetem anualmente a uma cirurgia bariátrica no Brasil, a popular redução de estômago.

[Eduarda Bagesteiro]: Eu nunca gostei de fazer exercício físico, nunca. E, falei isso para o meu médico e tudo mais. Eu acho que a coisa que eu realmente, agora, depois de 3 anos de cirurgia, que eu comecei a fazer é exercício físico, e eu paguei a minha língua porque a vida inteira eu falei: “eu não gosto, eu nunca vou gostar e quando eu falar pra vocês: eu estou gostando de fazer exercício físico”, vocês me internem.

[Ed Wanderley]: Peraí, mas a cirurgia era no estômago, não?

[Eduarda Bagesteiro]: Não é porque eu não fiz a cirurgia bariátrica que eu não continuo gostando de comer, mas é muito do psicológico também de você entender o que você conseguia comer ou não. E, às vezes eu comia um pouco a mais do que eu devia ali, mesmo dentro da dieta, e, sei lá, acabava ficando cheia demais, com aquela sensação né, de que está muito cheia e tudo mais. Mas também não passei por nenhum perrengue que já vi algumas pessoas comentando, como engasgos, muito vômitos, e essas coisas. Não cheguei a passar por nada disso.

[Ed Wanderley]: Duas pessoas mais próximas a mim passaram pela cirurgia bariátrica. Mais de dez anos separam as experiências das duas. Nos dois casos, por motivos diferentes, eu pude acompanhar o andamento da cirurgia, conferir o antes, o depois, e, claro, tirar dúvidas sobre o processo que muito me interessava.

[Eduarda Bagesteiro]: Tem uma parte que incomoda, que é de fato os primeiros, vou dizer assim o primeiro mês ali, onde você vai passar por uma dieta que é 100% líquida. Você vai comer super pouquinho, você acabou de passar por uma cirurgia de estômago, você tem que reaprender a comer, a entender o que você consegue comer e a entender as novas quantidades que você consegue comer. No início, você vai se alimentar por copinhos de 30 ml, só de líquido.

[Ed Wanderley]: É, mas parece horrível.

[Eduarda Bagesteiro]: E a melhor parte foi conseguir fazer as coisas de volta. Foi tipo assim, conseguir ir para um show e passar seis horas em pé e não sentir dor nos pés. É conseguir agachar e se precisar limpar a casa toda engatinhando hoje, eu consigo, entendeu? Isso então talvez eu não consiga, exagerei.

[Ed Wanderley]: É, mas parece incrível.

[Eduarda]: E faria de novo sem nem pensar.

[Ed Wanderley]: Pensar nessa cirurgia foi algo que fiz, por baixo, por vinte anos. A cirurgia sempre foi uma opção que pairava no horizonte, mas me faltava coragem. Nunca foi o meu caminho. Isso porque uma cobertura, como repórter, feita quando eu ainda tinha metade da minha idade, me deixou com mais medo, mais trauma e mais inveja. 

[Entrevista com Orlando Júnior]

[Ed Wanderley]: Rapaz, esse tempo trouxe tu de volta, rapaz? Diz tu, como é que está aí?

[Orlando Júnior]: Estou bem, e você?

[Ed Wanderley]: Orlando Júnior é o Gordinho da Net. É o outro caso de bariátrica que acompanhei de perto. Houve um momento em que o Recife inteiro ouviu falar dele. Em uma época em que o termo “influencer” não era atribuído a pessoas. É que, acredite, já existiu um tempo em que as pessoas mantinham blogs pessoais e que simples vídeos caseiros, sem edição, eram consideradas mídias de elite.

[Ed Wanderley]: Ô, bicho, tu lembra de mim?

[Orlando Júnior]: Sim.

[Ed Wanderley]: É, lembra, não.

[Orlando Júnior]: Você está um pouco diferente, né? Você tá mais moço.

[Ed Wanderley]: Eu não estou falando do rosto.

[Orlando Júnior] Você está mais moço.

[Ed Wanderley]: Eu não tô falando do rosto, estou falando se você lembra. 11 anos a gente se encontrou para fazer matéria e tudo. Acompanhei você por quase dois anos, fazendo matéria lá pro Diário de Pernambuco. Mas tu não lembra, não, né?

[Orlando Júnior]: Eu lembro que você… assim, eu não sou muito bom fisionomista, não. Mas eu lembro que a gente conversava, né? Você sempre me deu uma atenção bacana. 

[Ed Wanderley]: Eu conheci Orlando com 316 kg. E, literalmente, o conduzi a uma primeira página de jornal. Caso nunca tenha ouvido falar, jornal era uma tecnologia antiga em que as pessoas liam notícias impressas num papel durante o café da manhã.

[Orlando Júnior]: E eu com 316 quilos. Meu apelido até hoje em casa é formigão, porque eu adoro açúcar, pô. Amarga basta a vida.

[Ed Wanderley]: Qualquer semelhança com a minha realidade seria mera coincidência?

[Orlando Júnior]: Eu larguei a faculdade com 23 anos, para ser taxista e os meus irmãos todos se formaram. O mais velho era advogado, o mais novo era engenheiro, a minha irmã era médica. Infelizmente, todos morreram. Inclusive, o interessante é que foi do coração, e ninguém tinha problema no coração.

[Ed Wanderley]: Todos?

[Orlando Júnior]:Todos. Meu pai foi o primeiro, com 46 anos de idade, morreu de coração, dentro de um avião.

[Ed Wanderley]: Já deu pra sentir o drama.

[Orlando Júnior]: Agora, no final do mês, eu faço 60 anos. Gostaria de chegar aos 70, aos 75. Quem sabe é aquele lá.

[Ed Wanderley]: A fala de Orlando me faz lembrar eu só desejava mesmo passar dos 36 anos. Se você não lembra, eu convivo desde os 13 anos com a “Maldição dos 36”: uma certeza após um evento marcante que eu experimentei aos 13 anos. Até leitoras de mão ou de mapa astral que cruzaram, por acaso, o meu caminho, sem que eu dissesse nada, elas apontavam: “tem uma quebra aqui entre seus 30 e 40 anos”. Enquanto eu pensava: “é, eu sei. Vou morrer”. E com um coração funcionando com apenas 36% da capacidade, todo tipo de misticismo já vestiu o traje de ciência a essa altura. Eu te conto essa história um pouco mais pra frente.

[Ed Wanderley]:Eu precisava fazer as pazes com a decisão de não ter me submetido a essa cirurgia uma década antes, quando eu o conheci, ainda como um jovem repórter. E, pensando bem, não ter feito isso pode muito bem ter me levado ao ataque cardíaco que me trouxe de volta a essa conversa, com você. Seria esse o meu efeito borboleto ou mais um caso de ovo e galinha? Ambos fritos, claro!

[Ed Wanderley]: Eu sou Ed Wanderley e nos próximos minutos eu te conto como eu morri. Esse é o A Última Bolacha, uma jornada que teve início no fim. Depois de um ataque cardíaco aos 36 anos durante um show de Paul McCartney, meus caminhos pessoais e profissionais se misturaram. Nos meses seguintes, passei a investigar não apenas para reportar, mas para reaprender a viver. Foram dezenas de documentos lidos, entrevistas conduzidas, seis mil quilômetros rodados e, enfim, mais de 50 kg eliminados. Neste episódio, você continua comigo num mergulho profundo na minha terra, Pernambuco, numa jornada para entender o universo das cirurgias bariátricas enquanto repenso algumas decisões, até profissionais, que me trouxeram até aqui. Alerta de gatilho, você segue comigo por sua conta e risco, mas o convite está feito: 

Episódio 3 – O efeito borboleta

[Entrevista com Orlando Júnior]

[Orlando Júnior]: Eu não tinha problema de colesterol, glicerídeo, glicose, disfunção renal, disfunção hepática. Nada, pô. Nada, nada, nada. E eu com 316 quilos!

[Ed Wanderley]: Em 2012, eu era repórter multimídia do Diário de Pernambuco, o mais antigo jornal ainda em circulação na América Latina (eles adoram lembrar disso). Foi no periódico que tive minha primeira experiência com jornal diário, impresso e online, e onde dediquei oito anos da minha carreira. Jovem, debochado, preto e gordo. Essa foi a máquina inconsequente que acabou escalada para cobrir a trajetória de Orlando Júnior, que ainda não tinha rosto ou nome para mim. Mas era o drama da semana que a família pernambucana desfrutaria se não engasgasse com o cuscuz, macaxeira ou suco de graviola matinais.

[Entrevista com Vera Ogando]

[Vera Ogando]: O Orlando foi uma das grandes histórias contadas por você, Ed, porque você era um jornalista aberto a esse tipo de jornalismo. 

[Ed Wanderley]: Aqui eu converso com Vera Ogando, que à época era minha diretora de redação no Diário de Pernambuco.

[Vera Ogando]: Porque tinha alguns colegas nossos que tinham vergonha de contar, não eram histórias como essa, eles tinham vergonha de fazer esse tipo de jornalismo, mais ligado diretamente à comunidade. Como se fosse uma coisa menor, porque eles estavam muito acostumados com jornalismo de estatística, aquele que vem muito endossado pela cultura dos anos 1980, e esquecia das pessoas. 

[Ed Wanderley]: Nessa época, o leitor se ver nas páginas, explorar textos mais literários, narrativos ou com apelo visual era uma aposta frente ao crescimento da internet. Vera diz que o retorno dessa aposta podia ser percebida todos os dias.

[Vera Ogando]: Percebi sim, através dos números da circulação. Porque eram histórias que se conectavam diretamente com as pessoas. As redes sociais não estavam tão fortes como atualmente, mas elas tinham um impacto muito grande no mercado leitor. E o mercado leitor pedia a gente para sempre humanizar. 

[Ed Wanderley]: Eu tinha uns 24 anos na época dessa cobertura, ainda sobrava colágeno na pele, nenhum cabelo branco e cheguei a pesar 150 kg. 

[Ed Wanderley]: Tu lembra disso?

[Vera Ogando]: Lembro. Lembro.

[Ed Wanderley]: Eu fiquei curioso olhando para trás. Em algum momento vocês pensaram como era um repórter obeso cobrindo um superobeso?

[Vera Ogando]: Não. A gente pensou como essa pauta se conectava diretamente com o Ed. Porque o Ed era um repórter que enxergava além dos números e das estatísticas. Ele tinha um olhar extremamente sensível. Ele enxergava, como a gente dizia: “o branco do olho das pessoas”, que é uma figura de linguagem muito comum aqui no sertão de Pernambuco. 

[Ed Wanderley]: E uma coisa curiosa é que eu lembro que essa cobertura para mim foi muito determinante. Porque foi ao ver a experiência de Orlando que eu decidi que apesar da minha obesidade, eu não iria fazer aquela cirurgia bariátrica. Porque eu morria de medo.

[Vera Ogando]: Entendi. Porque era um processo bem difícil e traumatizante. Eu lembro muito que o redator da primeira página, o Humberto.

[Ed Wanderley]: Humberto Santos, editor-executivo à época.

[Vera Ogando]: Ele se sensibilizava todos os dias. Quando tinha que tratar desse caso na primeira página. Porque ele se viu ali. Através daquele personagem. Entendeu? E ele passou por um processo de cirurgia bariátrica. E ele sempre enfatizava nas reuniões: “A gente precisa ajudar. A gente precisa que ele tenha um acompanhamento psicológico. Porque se não, ele não vai adiante. Ele não vai suportar.”

[Ed Wanderley]: Orlando era um paciente de 316 kg. E a nossa troca me marcou. Não apenas por me mostrar dois caminhos possíveis para mim, caso encarasse a cirurgia ou continuasse a engordar, mas também por compartilhar vivências. Quando você vai viajar ou mesmo num bar ou restaurante, você se preocupa com o que vai escolher, com o destino, preço, horário… Gordo tem que se preocupar se vai ter onde sentar, se a cadeira aguenta, se precisa de extensor de cinto de segurança… todo adolescente tem dúvidas e crises de pertencimento. Eu passei a adolescência e juventude me questionando se eu caibo. Às vezes, literalmente. 

[Orlando Júnior]: Bom, tu lembra que até o vaso era diferente, né? Que minha mulher desenhou o vaso, entendeu? Porque era muito grande, muito gordo.

[Ed Wanderley]: Uma das coisas que tu me falou, me marcou muito. Teve um dia que tu estava revoltado com alguém do hospital. E aí tu falou: “Ah, isso aqui, Pô”, e aí mexeu na barriga. “Isso aqui é um sovaco e as pessoas aqui não cuidam disso”, e tal, não sei o quê, “tem que botar desodorante.”

[Orlando Júnior]: É! E eu continuo fazendo a mesma coisa.

[Ed Wanderley]: Rapaz! Eu lembro que eu falei assim: “velho eu nunca tinha pensado nisso”, e eu estava com barriga dobrada.

[Orlando Júnior]: Embaixo da barriga, eu continuo colocando hidratante. Que é para não feder e não assar. E, nas dobras aqui, desodorante em peso. Tanto que, modéstia à parte falando, eu sou um homem que, porque tem homem que fede, mas eu sou um gordo que não fede, pô.

[Ed Wanderley]: É o velho “só sabe quem passa”. O tratamento do Gordinho da Net foi agressivo, como é também a nossa doença. E, como os benefícios, os riscos também são para a vida toda.

[Orlando Júnior]: Mesmo quando eu era muito gordo, eu tinha saúde mas, eu entrei em um grupo diferenciado. Porque eu fiz cirurgia de redução, mas só o fato de eu não ter que tomar complexo de vitamina pro resto da vida, né? Tem gordo que perde as unhas, tem gordo que cai o cabelo, tem gordo que ataca os dentes, o meu atacou só os dentes mesmo. Quando você faz cirurgia de redução você deixa de fabricar determinadas coisas que você, que é um cara normal fabrica. Por exemplo, a vitamina D que vende na farmácia é 4 mil e de vez em quando eu tenho que tomar. Mas a que eu tenho que tomar é a de 6 milhões, porque é preciso mandar fazer e só a injeção custa 300 paus.

[Ed Wanderley]: Esse “pro resto da vida” sempre me assustou quanto à cirurgia. E essa parte era opção. O lado triste é que havia outro para sempre com que tenho que lidar e não há escolha: a própria obesidade. 

[Entrevista com Fábio Viegas]

[Fábio Viegas]: Tá na cabeça? Não sei, tá? Ou é por falta de tratamento ou por tratamento não adequado?

[Ed Wanderley]: Esse é o médico Fábio Viegas, que encontrei durante um congresso em São Paulo. E o que me chamou a atenção nele foi o fato de o cirurgião não apresentar a cirurgia bariátrica como “a solução para a obesidade”, como eu já ouvi à exaustão.

[Fábio Viegas]: Obesidade é uma doença, é uma doença multifatorial. Multifatorial por quê? Porque tem vários problemas que você pode ter no seu organismo que não estão sendo vistos. E quando você fala: “olha só, você está tendo depressão”, você é culpada de ter depressão ou não? Claro que não! Quando você tem depressão, você tem deficiência, você tem que tratar a depressão, obesidade é igual. Você tem que tratar a obesidade. O que a gente está defendendo aqui é: vamos tratar a obesidade da maneira certa, seja qual for o tratamento, não pode é não tratar, porque o não tratamento é igual a morte.

[Ed Wanderley]: Eu cheguei a me consultar com alguns cirurgiões nos meus vinte e poucos anos, mas a minha experiência, nesse departamento, é a de me deparar com a filosofia do “vai querer cortar ou não?”. Até então eu mantinha um corpo rechonchudo, mas à prova de bisturis.

[Ed Wanderley] Pois bem, na época em que conheci Orlando, o SUS, Sistema Único de Saúde, promovia cerca de 5 mil cirurgias bariátricas no país por ano. Mais de uma década depois, a obesidade cresceu quase quatro vezes no Brasil, enquanto o número de cirurgias estacionou próximo ao teto histórico desde a pandemia. Em 2019, foram 12.568, para ser mais preciso. Com a Covid, os números despencaram e a fila só voltou a andar um pouco mais a partir de 2024, quando 11.200 cirurgias foram realizadas. Os dados são da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, a SBCBM.

[Entrevista com Juliano Canavarros]

[Juliano Canavarros]: Eles não falam, mas um pouco de estigma acho que veio das primeiras cirurgias. 

[Ed Wanderley]: Esse é Juliano Canavarros, presidente da SBCBM. E ele pareceu entender o receio que eu sempre tive. 

[Juliano Canavarros]: Das primeiras era fazer, sabe o quê? Derivação: o bypass só intestinal. 

[Ed Wanderley]: O bypass é a técnica que encurta órgãos do sistema digestivo, para que eles sejam menos absorvidos pelo corpo.

[Juliano Canavarros]: Então, o cara perdia tudo quanto é proteína, vitamina… ficava desnutrido, acabado e então, aquilo dava pânico. A pessoa olha e fala “nossa, essa aí fez a cirurgia, meu Deus do céu”. 

[Ed Wanderley]: E eu conheci pessoas que fizeram e que tinham quedas de pressão muito abruptas. Enfim, naquela época, né? Então, essa técnica, é justamente a técnica que vem ali dos 60 aos 70. Hoje em dia é totalmente diferente. 

[Juliano Canavarros]: Hoje você faz um furinho e o paciente no dia seguinte tem alta. 

[Ed Wanderley]: A demanda por meios de combater a obesidade é um peso que não somente os pacientes que carregam. Mesmo que remédios como as canetas emagrecedoras prometam resultados semelhantes ao da cirurgia, Canavarros vê esses medicamentos como aliados.

[Juliano Canavarros]: Dentro da área cirúrgica, tem os haters, vamos falar assim, contra remédio. Cara, eu por enxergar a obesidade como uma doença crônica, eu preciso de armas. Tudo quanto é arma que você ver e me trouxer pra ajudar no tratamento, é válido.

[Ed Wanderley]: O problema que se impõe é a quantidade de histórias de pessoas que submeteram à cirurgia e voltaram a ganhar peso, o que, pra mim, seria um pesadelo.

[Juliano Canavarros]: 18% das cirurgias hoje são revisionais, 18%. Se você pegar paciente que é recidiva da obesidade, pode chegar a mais do que isso. Só que tem muitos pacientes que eu vou dar o remédio, ele vai voltar a emagrecer, ele vai acompanhar de maneira mais séria, vai fazer o follow-up: acompanhar com a equipe. A equipe vai puxar a orelha dele, ele vai enquadrar de novo, entendeu? Vai ter o paciente que o tratamento endoscópico vai ser suficiente para controlá-lo, vai fazer um laser de argônio, que é a aplicação de um laser por dentro da cirurgia e ele vai emagrecer, entendeu?

[Ed Wanderley]: Canavarros acredita que o cenário da obesidade pode ter uma mudança drástica se o acesso à cirurgias bariátricas for democratizado. E essa foi uma demanda que ele resolveu buscar lá em Brasília.

[Juliano Canavarros]: Ampliar tanto o diagnóstico quanto o acesso ao tratamento. Por quê? Porque tem muita gente que está na fila. A gente queria sentar numa mesa e todo mundo discutir: de que maneira quando não tem um endócrino, se pode ser um clínico. Porque às vezes uma cidadezinha do interior não tem condição de ter um endócrino lá, mas tem um clínico que estudou. Essa parte política aí, política na área médica eu até gosto, mas na área… 

[Ed Wanderley]: Mas no cargo de presidente, o senhor tá em cargo político.

[Juliano Canavarros]: Pois é, político, cara, político infelizmente.

[Ed Wanderley]: E não tem parceiros assim em Brasília?

[Juliano Canavarros]: Não, a gente contratou o Thomas, né? 

[Ed Wanderley]: Thomaz D’Addio, falo com ele em seguida.

[Juliano Canavarros]: O Thomaz é o cara que depois dessa reunião que nós saímos, um olhando para a cara do outro e dizendo: o pessoal chega aqui, cumprimenta e chama os secretários aqui do Ministério da Saúde, pelo nome, pô. E a gente chega aqui, “quem é fulano, quem é beltrano?”, fica parado lá embaixo até ter autorização de subir, sabe aquele negócio? E o Thomaz ele tem uma pessoa em Brasília que faz esse lobby e tal.

[Ed Wanderley]: A curiosidade me fez ir atrás desse personagem que abre portas e chama os secretários do ministério pelo nome. D’Addio prefere ser chamado de consultor.

[Entrevista com Thomaz D’Addio]

[Thomaz D’Addio]: É impressionante, porque se você pensar: no sistema público, na proporção geral, 75% da população é atendida pelo SUS e 25% da população é atendida pela saúde suplementar.

[Ed Wanderley]:Ainda não há incorporação prevista de novos critérios que acelerem significativamente a fila da cirurgia, que só cresce. O Ministério da Saúde diz que mais de 1 milhão de pacientes enfrentam obesidade de grau 3, hoje. Apesar da expectativa, na prática, o investimento até trouxe vantagem para alguns poucos, mas não para médicos ou pacientes. E, nesse momento, D’Addio aproveitou para defender o seu trabalho de… conscientização. 

[Thomaz D’Addio]: Infelizmente, no Brasil, o lobby ficou associado à corrupção, à mala de dinheiro, dinheiro na cueca e essas coisas todas. A parte não republicana da política. Acho muito ruim, assim, que o nome virou um sinônimo de ser usado de uma forma negativa. Ah, “isso aqui são os lobistas. O lobista que colocou esse texto”. Ele fez uma sugestão de emenda, para melhorar o texto, submeteu esse texto ao parlamentar, o parlamentar concordou com o ponto de vista e apresentou a emenda. O gabinete de qualquer parlamentar é aberto para todo mundo. Ele é aberto para a indústria, para as marcas, para as empresas e para a sociedade.

[Ed Wanderley]: Sim, eu sou a favor de maior acesso à cirurgia bariátrica no Brasil. Não, eu não fui submetido a uma. Mas a verdade é que o peso que perdi fez muita gente apostar que eu tinha feito uma operação no estômago. Inclusive, entre minha família. Deixa eu avançar rapidinho no tempo, por um breve momento, só para explicar esse ponto: no caminho para encontrar Orlando na cidade do Paulista, depois de eu já ter perdido 50 quilos e, acredite, não perceber a diferença, aproveitei para passar na quadra em que morou minha falecida avó e onde ainda hoje moram meus tios Júlio e Neide. Foi um daqueles momentos em que a realidade dá na sua cara.

[Sonora com tios de Ed]

[Ed Wanderley]: Já vi meu tio ali. É visita de médico, mas… E aí, doutor? Eu percebi.

[Tio Júlio]: Caraca, velho.

[Ed Wanderley]: Tia tá aí?

[Tio Júlio]:Tá aí.

[Ed Wanderley]: Conhecesse não, foi?

[Tio Wanderley]: Juro que eu não conheci.

[Ed Wanderley]: Faz tempo, né?

[Tio Júlio]: Tá diferente

[Ed Wanderley]: Diferente por que, pô?

[Tio Júlio]: Emagreceu, né, mano? 

[Ed Wanderley ]: Ô de casa.

[Tia Neide]: Você tá lindo, meu filho

[Ed Wanderley]: Por que, rapaz?

[Tia Neide]: Você tá lindo!

[Ed Wanderley]: Tô lindo por que, rapaz? 

[Tia Neide]: Entre, meu amor. Entre.

[Ed Wanderley]: Rapaz, e essas coisas aí, rapaz? Que é isso aí? Está cheia?

[Tia Neide]: É a barraquinha que a gente vende aí em frente, e agora recolheu.

[Ed Wanderley]: E tu tá vendendo o quê? Que que vende mais?

[Tia Neide]: A gente vende pipoca, confeito.

[Ed Wanderley]: Confeito?

[Tia Neide]: Doce. Aqui, ó. O que você quer?

[Ed Wanderley]: Oxente, eu não quero nada.

[Tia Neide]: O que você quer?

[Ed Wanderley]: Eu não estou podendo comer nada disso aí, não. 

[Tia Neide]: É pipoca, é doce..

[Ed Wanderley]: É, só o que não presta. Só o que não presta.

[Tia Neide]: Que não presta? Não precisa prestar, não. 

[Ed Wanderley]: Eu só parei pra lhe dar um abraço.

[Tia Neide]: Eu estava falando: “meu Deus, o Ed veio num carnaval, no Galo da Madrugada, e num teve tempo de vir ver a tia, a única tia que tem aqui”.

[Ed Wanderley]: Eita, drama.

[Tia Neide]: Única tia, da parte da mãe.

[Ed Wanderley]: Drama. 

[Tia Neide]: Balinha de coco?

[Ed Wanderley]: Quero não, tia, obrigado.

[Tia Neide]: Aqui tem coco. Corta o coco aí pra ele. 

[Ed Wanderley]: Quero não, quero não.

[Tia Neide]: Água de coco?

[Ed Wanderley]: Quero não, tia, obrigado.Eu tenho que correr, que eu tenho entrevista já já.

[Tio Júlio]: E então, bicho.

[Ed Wanderley]: Tá vendo?

[Tio Júlio]: Tá muito diferente, mano.Tá bem demais, graças a Deus.

[Tia Neide]: Lindo da tia.

[Ed Wanderley]: A surpresa dos meus tios foi por toda uma reclusão que passei a experimentar após o ataque cardíaco que sofri em dezembro de 2023. Como eu contei no início desse podcast, eu saí do hospital com a recomendação urgente de perda de peso e foi assim que eu fiz. Mas para quem me acompanhou por décadas, o choque estético de 50 quilos a menos na balança chega na frente da preocupação com a saúde. 

[Ed Wanderley] Mas calma aí, vamos voltar para a nossa jornada. Como eu comentei no final do episódio anterior, eu até consegui perder 28 quilos por conta própria, mas passei a amargar um platô que beirava o desespero, não importando o quanto eu me mantivesse na linha e marcando dias ininterruptos de cardio. Mesmo fazendo tudo certinho, o ponteiro da balança parou de mexer. E me faltava coragem para, depois de conseguir me livrar de tanto peso, agora, recorrer à bariátrica? Psicologicamente eu tava desafiado. E resolvi ceder à ajuda. Digo ceder porque havia uma mão estendida há muitos meses que continuava me chamando sem que eu precisasse pedir. Uma ajuda originada num sentimento genuíno de amizade e que se materializou num telefonema que eu recebi quando ainda estava na maca do hospital, meses antes. Essa é a jornalista Andressa Simonini. Amiga e autora dos bullyings mais simpáticos com os quais eu tive que lidar, você vai ouvir…

[Entrevista com Andressa Simonini]

[Andressa Simonini]: Sabe quando passa um filme na sua cabeça? Eu falei: “cara, vou perder meu amigo, o cara tão incrível, o mais legal que eu conheço na minha vida, vou perder esse amigo, não tô acreditando”.

[Ed Wanderley]: Cabe dizer que Andressa era uma das várias amigas que conheciam a “Maldição dos 36”, mas se recusando a acreditar que ela pudesse ser real, se fez uma das vozes que mais abertamente me cobravam para emagrecer. E a pressão se multiplicou depois de uma viagem que fizemos para o arquipélago de Fernando de Noronha.

[Andressa Simonini]: Ele falou assim: a praia mais bonita é a Praia do Sancho, pra mim não tem praia mais linda! Eu, animada porque não conhecia Fernando de Noronha e ele era meu guia. Ele organizou, eu pagava e ia onde ele falava que eu tinha que ir. “Não, a Praia do Sancho que é legal, você desce uma escada, você sobe uma escada, um paredão”… quando chegou na tal da Praia do Sancho, eu falei: vamos? E ele falou: “não, eu não vou descer. Não vou descer, acho que eu não estou me sentindo tão confortável pra subir”

[Andressa Simonini] Eu desci, triste. Isso me pegou muito, porque ele não sabe, mas essas coisas pegam a gente. Eu lembro que eu mergulhei e tentei fazer umas fotos embaixo d ‘água que nem ficaram tão boas, porque eu queria subir de volta. “Não, vamos subir, vamos subir, vamos subir o Ed estava lá em cima, ah lindo, tira uma foto aqui e bora com o Ed”, e eu vi no olho dele que ele ficou muito chateado do receio dele não conseguir subir, né Ed?

[Ed Wanderley]: Pois é, e essa intensidade toda explodiu após saber da minha internação. Moema Barbosa é uma amiga de Andressa, de quem eu só ouvia falar por tê-la ajudado a emagrecer após o término de um noivado. Ela é sócia de uma clínica de emagrecimento e foi quem mandou me intimar, sem nem cobrar, quando eu ainda estava no hospital: “você vai reaprender a comer e vai ter que se mexer”. Poucos meses depois da minha internação, eu já via uma redução significativa na balança, mas também uma estacionada no peso. Não tinha nada a perder. Ou melhor, tinha. Muito. E daí eu fui.

[Entrevista com Moema Barbosa]

[Moema Barbosa]: Não, mas a primeira vez ela me falou disso aí, antes da história do infarto. “Tem um amigo meu que é jornalista, está morando em Brasília”… e contou a história tanto que quando eu te falei eu já sabia da história da escada e o que me pega muito nessa questão da obesidade, são as limitações que ela coloca na vida da pessoa. Eu acho que são bons disparadores para você poder pensar num tratamento de mudança de qualidade de vida. Porque ela acaba, nessas horas você registra de fato o quanto a obesidade te limita. Vai sofrer na vida a pessoa que vive fazendo dieta. É uma tortura. Para pensar em fazer dieta eu me lembrava frango esturricado com salada, então isso significava fazer dieta, isso não pode, ninguém vai suportar isso, fazer uma correção alimentar não tem que ter sofrimento.

[Ed Wanderley]: Devo dizer que cada dia sem bolo de macaxeira ou brigadeiro branco caracteriza sofrimento, sim. Mas, na prática, sem mistério, foi isso mesmo. Com exercícios e terapia, os resultados saltaram aos olhos. 

[Moema Barbosa]: Então como é que eu faço. Você faz uma alimentação que é em torno de 800 a 1000 calorias e você vai oferecer uma alimentação que está toda balanceada: proteína, carboidrato e gordura, de uma forma que ela vá proteger sua massa muscular. Com 3 dias, você começa a fazer. No primeiro dia você vai sustentando, no segundo dia você tem um pouco de fome, você tem um pouco de desconforto, de fato, e no terceiro dia você já está usando o seu super combustível: que é a sua reserva de gordura.

[Ed Wanderley]: Esse é um método que usa a lógica da cetose para uma intervenção terapêutica, proposta pelo médico argentino Máximo Ravenna, já falecido. Ele consiste em manter o corpo em alerta e em atividade, altamente hidratado e com uma ingestão controlada de menos da metade da média clássica das 2 mil calorias diárias, para manter um limiar entre a saciedade e o conforto. Não é para qualquer um, mas eu não conseguiria negar o resultado que me provocou.

[Moema Barbosa]: Você tem que fazer uma alimentação que você tenha uma perda de peso importante. A redução de peso importante. E essa é uma frase que eu gosto muito de falar para os pacientes que “a alimentação em si é uma intervenção terapêutica”, porque você conseguir em quatro dias você pegar uma pessoa que come 4, 5, 6, 10 mil calorias por dia comendo 800 calorias e sentir saciedade, as vezes por muitos anos que nunca sentiu, é de um lugar inacreditável. 

[Ed Wanderley]: Eu devo confessar. Até essa experiência começar eu me dava ao luxo de passar longe da seção de saladas nos restaurantes. Não é nem a questão do sabor. Picadinhos, cebola, pimentão, tomate, sempre emprestaram sabores a tudo que eu cozinhava ou consumia. Mas na hora de morder, assim, na lata, sem nem pagar um vinho antes, sempre foi um drama. A textura dava arrepios. O cheiro, um embrulho no estômago. E a ideia de fazer uma refeição apenas com uma salada sempre me pareceu um investimento financeiro de baixo retorno. Pagar para comer mato? 

[Trecho da música Socorro Deus]

[Ed Wanderley]: Mas os meses após a internação abriram a possibilidade de descobrir sabores e texturas. Inclusive, virei o maníaco da quinoa negra. E, apesar de agora entender que dá para substituir quase tudo, aprendi na terapia que é preciso compreender também a origem de nossos impulsos.

[Rosângela Pereira]: O paladar em si ele começa a ser formado ainda durante a gestação, o que a mãe como, principalmente na amamentação.

[Ed Wanderley]: Essa é Rosângela Pereira, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos nomes mais respeitados da área de nutrição desse país. 

[Entrevista com Rosângela Pereira]

[Ed Wanderley]: A culpa é da minha mãe?

[Rosângela Pereira]: Mas assim, a culpa não é dela, coitada. Ela recebeu uma influência do meio, né. Ela veio, você vê, o Pernambuco a grande base econômica durante muitos anos foi a cana de açúcar, logicamente, você produz para exportar, que era o que fazia no século XVII etc. Mas fica, né. Você tem que usar também, rapadura melado, fazer doces, usar isso. Vira a vida da pessoa. E a gente sente que a gente tem na nossa sociedade essa questão atávica: de onde viemos e o que a gente traz. Como você aprende tem que ser até decolonizado também na alimentação

[Ed Wanderley]: A professora explica como o retrato da família brasileira e da própria obesidade ao longo dos tempos pode ser captado pelo repertório do paladar que se constrói desde cedo.

[Rosângela Pereira]: O paladar para determinadas coisas. Se você não der fruta, a criança não vai aprender a comer fruta. Se não der legume, não vai aprender. Se você começar a dar um monte de coisa com açúcar, com sal, com glutamato monossódico, que tem nesses produtos processados, não tem papila gustativa que receba uma uma fruta com satisfação, entendeu? É muito difícil. 

[Ed Wanderley]: Mas os alimentos in natura, por exemplo, serem colocados na nossa dieta na formação, para que isso vire um hábito, isso é algo que tem que ser de fato estimulado, é natural? Ou a gente procura isso naturalmente por conta da nossa formação humana?

[Rosângela Pereira]: Tem que ser estimulado. Hoje a gente sabe que criança até dois anos não deve comer nada de açúcar. Além da alimentação, da amamentação até os seis meses, exclusiva. Antigamente não existia isso. Você começava a dar chazinho com açúcar quando o neném nascia. Na maternidade já recebia lá chazinho com açúcar, entendeu? Você está falando da culpa da minha mãe, mas a tua mãe viveu num mundo em que se comia açúcar a rodo, e que se dava açúcar para criança desde que nascia Então, isso vem mudando, ainda vai levar algumas gerações para mudar. 

[Ed Wanderley]: As escolhas alimentares nessa primeira fase da vida também têm efeitos na forma como nosso corpo se desenvolve, não apenas na cultura e nos gostos que ficam evidentes na fase adulta.

[Rosângela Pereira]: Não é só o paladar, é também pelas questões metabólicas. Porque você vai mexer num metabolismo ultra fino da criança, que está em formação, em amadurecimento do processo metabólico e aí é necessário, você tem que tomar determinados cuidados. Em termos de metabolismo infantil, eu acredito que vai mudar toda a questão de sensibilidade à insulina, de como que ela metaboliza os açúcares. O próprio ganho grande de peso também, porque tem a obesidade infantil também 

[Ed Wanderley]: Mas então, como mudar? Como se livrar? E como garantir que outras escolhas sejam feitas com estímulos que vão além do psicológico e passam pela falta de tempo e pela própria modernidade?

[Rosângela Pereira]: Toda propaganda, não sei se você já viu, propaganda de comida pronta diz: liberte-se da cozinha! Agora até o iFood diz isso” porque que você vai cozinhar se você pode pedir?” Essa é uma grande questão. Você se afastar do seu domínio sobre a sua comida e essa questão da alienação é uma coisa do capitalismo.

[Ed Wanderley]: Mais do que identificar alienação, repensar escolhas alimentares é, mais uma vez, remexer na herança colonial, que, como você já ouviu, Pernambuco conhece tão bem. 

[Rosângela Pereira]: A gente não vê muito isso nos outros, pelo menos nos países mais centrais. A cozinha é um lugar desprezível porque era o lugar, mais recente o lugar da empregada doméstica, e antes o lugar das escravas que faziam a comida. Então ninguém quer ficar naquele lugar, e por isso que eu acho, a gente também tem que decolonizar nossa visão de comida, entendeu?

[Ed Wanderley]: Eu continuo perdendo peso, e logo mais vou atualizar nosso placar. Mas você deve saber: quanto mais peso você perde, mais difícil fica.

[Ed Wanderley]: Não, não foi nesse momento que eu recorri às canetas emagrecedoras. E eu sei que a tentação é gigante, e eu preciso te contar algumas coisas que descobri nesse caminho e que me fizeram decidir não embarcar no medicamento mais hype da cultura pop em muitos anos. E esse é o tema do nosso próximo episódio. Por motivos bem diferentes, pelos quais você também vai ficar assustado, eu não fui na onda das canetinhas. Medo, mais uma vez. Ainda com mais razão. 

[Ed Wanderley]: E falando nesse medo tão recorrente, eu vou te contar um trecho importante que eu fiz questão de não te contar no início do episódio: Raras são as vezes que a vida nos oferece chance para questionar e revisitar experiências. Uma dessas vezes foi o meu reencontro com Orlando, que você ouviu mais cedo. Nos meus vinte e poucos anos eu já havia atingido os critérios de Índice de Massa Corporal (IMC), para me submeter a uma cirurgia bariátrica. Ou seja, tinha um IMC acima de 40, mesmo sem comorbidades, como são chamadas outras doenças de risco ou incapacitantes como diabetes, hipertensão, dores nas articulações, na coluna e tantas outras. Não fiz. É possível que isso tenha sido um erro. Talvez eu me tornasse um balzaquiano mais feliz nos meus anos de “inta”. Talvez eu tivesse curtido mais umas músicas de Paul McCartney; Talvez eu tivesse mais horas de memória na praia do Sancho, em Fernando de Noronha; talvez eu tivesse até gastado bem menos em roupas feitas por costureiras, única forma de contornar a frustração que para na etiqueta que só vai até o GG. Talvez. Conhecer Orlando, lá atrás, perceber todas as dificuldades, a dependência de terceiros e os riscos durante e após a intervenção, sacramentou minha decisão de não ir para a faca, apesar de testemunhá-lo perder quase 150 kg. E eu contei isso pra ele.

[Orlando Júnior]: Até porque, pô, eu vou fazer 60 anos, cara. Eu não troco o que eu tenho aqui, o que eu tenho aqui por ninguém, não. Não troco mesmo. Eu tive muita sorte na vida. Eu tive um pai da bexiga, infelizmente ele foi embora cedo, com quem eu aprendi muito. Minha mãe era uma mulher iluminada. Minha mulher é uma pessoa assim, muito especial, entende? E, assim, cara tem tanta gente pior que eu por aí. Então, a gente tem que criar uma maneira dos gordos que têm saúde para ajudar as outras pessoas a terem uma condição melhor. Eu queria criar justamente uma maneira… uma ONG, uma coisa pra encaminhar pessoas, para de repente a pessoa ter acesso. Porque tem muito gordo que não tem acesso a um médico. Tem muito gordo que não tem acesso a uma dieta. Tem muita gente, que pega o gordo e discrimina, acha que o cara é gordo porque o cara é vagabundo, e não é assim. O cara para ser gordo tem todo um porquê, pô.

[Ed Wanderley]: Eu vou lhe confessar. Pra mim, a sua história me deixou com tanto medo que eu disse que eu não podia entrar na faca. 

[Orlando Júnior]: Ué, por que?

[Ed Wanderley]: Medo. Você acredita que sua história foi um sucesso?

[Orlando Júnior]: Pra mim foi! E eu posso dizer que eu servi de exemplo pra outras pessoas. Eu faço parte de um grupo, Ed, que foge a todos os contextos. É como o cara que é negro. O cara olha o negro, com olhos diferentes. O cara que é magro demais… E o gordo é um destaque na multidão. O cara vai e fala “Aquele gordinho ali!” Mas eu acho que, desde que você me conheceu, você notou que eu sou bem… não ligo pra isso, não. Nunca ninguém me machucou por causa disso. Eu sou casado com uma gata. Minha mulher tem 57 anos, minha mulher é uma coroa filé, pô. Toda boazuda, caramba. Entendeu? Então, assim, isso nunca foi problema pra mim. Eu sempre soube administrar. Agora eu nunca deixei ninguém me pisar. Nunca deixei ninguém me magoar.

[Ed Wanderley]: E não cansa ter que se defender tanto?

[Orlando Júnior]: Às vezes cansa, às vezes você não quer, assim..Nós, que fugimos de um determinado padrão, a gente tem que estar sempre na defensiva. Isso não sou só eu, o gordo não. É o magro, é o negro, é o cara que tem o olho puxado, é o baixinho é o manco, entendeu? Só que, a gente tem que tá sempre e tem horas que a gente não está afim.

[Ed Wanderley]: Mas… Ninguém te machucou? Nunca te magoou por causa disso?

[Orlando Júnior]: Não. Assim… As pessoas tentaram, né? Só que eu sempre me defendi.

[Ed Wanderley]: Sei bem, Orlando. E a gente se defende como pode. Uns no braço, outros na caneta, mas é preciso ter consciência das ciladas em que a gente mesmo se mete. Ou se aplica. Não posso dizer mais nada. Mas é sobre isso que a gente conversa no próximo episódio. E como eu prometi: é hora do placar. Comecei a jornada com 145 kg, passei a 117, por conta própria, nos quatro meses seguintes, depois da minha saída do hospital. E então, ao longo de oito meses, acompanhado de uma equipe e apostando pesado no controle do metabolismo, na alimentação e dos exercícios físicos, cheguei a 93kg. Põe 52 negativos nessa conta aí, produção! 

E a gente se vê no próximo episódio!

[Créditos podcast]
[Ed Wanderley]: A Última Bolacha é uma produção original da Agência Pública de Jornalismo Investigativo, realizada com apoio dos Institutos Ibirapitanga e Serrapilheira. Esse podcast foi escrito por mim, Ed Wanderley, com a colaboração de Stela Diogo e Claudia Jardim. Claudia também colaborou com a investigação jornalística que deu origem a essa série. A produção e pesquisa de material de arquivo é de Stela Diogo com apoio de Rafaela de Oliveira. O projeto é uma ideia original de Natália Viana. A captação de áudio em campo foi feita pelos técnicos Davysson Barbosa, Ethieny Karen, Gil Neves, Stela Diogo, Tathiane Santos e Vinícius Machado. A locução foi gravada no estúdio da Agência Pública, com trabalhos técnicos de Ricardo Terto. Sofia Amaral fez a direção de locução e a coordenação geral da série. O desenho de som é de Ricardo Terto, que também fez a edição e finalização dos episódios. A trilha sonora original é de Ana Sucha e trilhas adicionais do Epidemic Sound. A identidade visual é assinada por Matheus Pigozzi. Obrigado por sua companhia. Gostou? Então compartilhe esse resultado e segue a Agência Pública nos tocadores e redes sociais para não perder nenhum lançamento. E acesse o nosso site, aapublica.org.

Compartilhar197Tweet123Enviar
Redação Capital Brasília

Redação Capital Brasília

  • Tendendo
  • Comentários
  • Mais recente
Brasileiro que doou medula óssea 3 vezes: “Super-herói da vida real”

Brasileiro que doou medula óssea 3 vezes: “Super-herói da vida real”

14 de julho de 2025
Super Viagra: cientistas testam pílula significativamente mais forte

Super Viagra: cientistas testam pílula significativamente mais forte

20 de julho de 2025
Bar LGBT inaugura “mamódromo” e promove suruba beneficente. Veja fotos

Bar LGBT inaugura “mamódromo” e promove suruba beneficente. Veja fotos

12 de janeiro de 2024

Arena noivas: maior evento de noivas do Distrito Federal está de volta em sua 2ª edição

0

Sumo sacerdote nigeriano de Ifá participa de visita guiada ao Panteão Afro da Praça dos Orixás, em Brasília

0

Interdições no trânsito do Parque da Cidade neste domingo  

0
Após ser barrado em caso de advogada presa por difamação, delegado nega afastamento. Veja vídeo

Após ser barrado em caso de advogada presa por difamação, delegado nega afastamento. Veja vídeo

20 de abril de 2026
Após ser barrado em caso de advogada presa por difamação, delegado nega afastamento. Veja vídeo

Após ser barrado em caso de advogada presa por difamação, delegado nega afastamento. Veja vídeo

20 de abril de 2026
Explosão em poste causa apagão no DF e deixa moradores no escuro. Veja vídeo

Explosão em poste causa apagão no DF e deixa moradores no escuro. Veja vídeo

20 de abril de 2026
Capital Brasília

Copyright © 2023 Capital Brasília.

Navigate Site

  • Quem Somos
  • Anuncie
  • Privacy & Policy
  • Contatos

Siga nos

Bem vindo de volta!

Entrar na conta

Forgotten Password? Sign Up

Create New Account!

Fill the forms bellow to register

All fields are required. Log In

Retrieve your password

Please enter your username or email address to reset your password.

Log In

Add New Playlist

Nenhum resultado
Ver todos os resultados
  • Home
  • Brasil
  • Brasília
  • Política
  • Esportes
  • Saúde
  • Entretenimento
  • Mundo

Copyright © 2023 Capital Brasília.

Are you sure want to unlock this post?
Unlock left : 0
Are you sure want to cancel subscription?
Vá para versão mobile