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Quem mora em Olinda, Pernambuco, ou já visitou a cidade, provavelmente reconhece o trabalho da artista e ativista Catarina DeeJah. Ela é reconhecida por sua criação musical e de artes visuais, como as famosas bandeirolas coloridas, feitas em tipografia própria, que estão espalhadas por todos os cantos como uma lembrança da folia, da irreverência e da cultura vibrante da cidade Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Unesco.
DeeJah se define como uma “artista prática”. No ateliê-galeria, que fica no sítio histórico, e também é sua casa e da sua família há mais de 40 anos, ela cria usando muitas vezes a ironia e o deboche como recursos para “provocar o pensamento”. E foi por essa característica provocativa do seu trabalho que a artista independente se surpreendeu quando recebeu uma notificação extrajudicial da bet Esportes da Sorte, uma das principais empresas de apostas eletrônicas do país.
Em janeiro deste ano, DeeJah lançou, no Instagram, as artes do projeto “Bet, a feia”, com uma identidade visual e tipografia que remetia diretamente a Esportes da Sorte e também à telenovela colombiana “Betty, a feia”. A ideia surgiu da indignação da artista pela quantidade de lixo deixada pela empresa nas ladeiras no ano passado, quando a bet foi uma das principais patrocinadoras da folia olindense. Na época, a Agência Pública mostrou como a empresa de apostas estava em todas as artes de divulgação do carnaval da cidade. “Despejaram nas ruas toneladas de brindes de poliéster, que não são biodegradáveis”, lembra.
No dia 23 de janeiro, a artista recebeu uma notificação extrajudicial assinada pela Esportes Gaming Brasil LTDA., responsável pela Esportes da Sorte, Onabet e Lottu. O documento, enviado por e-mail, exige a retirada imediata das redes sociais, e de circulação física, produtos e conteúdos que façam uso ou referência à marca, sob ameaça de adoção de medidas judiciais.
No Instagram, DeeJah contou que ficou um pouco surpresa porque achou “que essa coisa da ‘Bet, a feia’ tem tudo a ver com o espírito de carnaval, de brincadeira, de paródia, de sátira.”
À Pública, a artista disse que esta foi, na verdade, a segunda vez que ela foi abordada pela Esportes da Sorte por seus conteúdos críticos. Depois do carnaval do ano passado, ela postou imagens do entulho deixado pela bet nas ruas. A postagem repercutiu muito. “Pessoas de outros lugares comentaram que tinha acontecido o mesmo nas cidades delas”, disse. “Então, o responsável pela operação em Olinda me mandou uma mensagem dizendo que eu estava agindo de má fé e pedindo para tirar a postagem. Ele, inclusive, me perguntou quanto eu queria para fazer a identidade visual do ano que vem, queria me comprar. E aí ele botou quase que uma milícia digital para desdizer a minha postagem e, em seguida, sumiu”, disse.
A Pública questionou a empresa, que preferiu não se manifestar.
DeeJah considera que a reação da Esportes da Sorte contra ela foi “uma coisa desmedida”. “Eu tenho um humor sarcástico, iconoclástico, quis criar uma personagem para gerar uma empatia, trabalhar uma subliminaridade, criar uma conexão das pessoas”, diz.
Na opinião do advogado e especialista em propriedade intelectual, Flávio Pougy, o caso da artista não se trataria de uma infração do direito de uso de marca por se tratar de um “trabalho de paródia” e pode inclusive ser enquadrado como “censura”. “Nesse caso, o entendimento é que não infringe o direito da marca. É uma obra crítica”, considera. “Além do mais, ela [a artista] está respaldada por um fato verdadeiro, uma coisa que aconteceu, que é sujeira em espaço público, ou seja, o trabalho tem um caráter de uma denúncia também. É uma paródia crítica legítima sobre um fato de interesse público.”
A Esportes da Sorte patrocina grandes festas pelo Brasil, como os carnavais de Olinda, Recife e Salvador. Este ano, a Esportes da Sorte segue como uma das patrocinadoras master da folia olindense. A empresa também é alvo de investigações por prática de jogos ilegais e lavagem de dinheiro.
Bet, a feia
Depois de receber a notificação, DeeJah decidiu fazer adaptações no projeto “Bet, a feia”, passando a utilizar uma tipografia própria na arte, que não remete à identidade visual da Esportes da Sorte. A campanha dela inclui um manifesto chamado “Desbanque a banca”, onde a artista afirma: “a verdade é feia (…) Dignidade Não se Joga”, e prevê ações de rua, como confecção de stencils, lambes e leques, todos em material sustentável, para serem distribuídos pela cidade, assim como parcerias com entidades de saúde pública e organizações que trabalham com redução de danos.
“As bets são hoje uma questão de saúde pública, os auxílios-doença por vício em jogos aumentaram 2.300% no Brasil [entre 2023 e 2025, segundo dados do INSS]. As famílias estão sendo impactadas, eu tenho familiares que estão passando”, diz a artista.
Mas DeeJah acha que colocar a campanha nas ruas, depois da notificação extrajudicial, é como enfrentar um gigante sozinha. “É uma ação minha, não estou ligada a nenhum partido. Tinha pensado em fazer produtos, distribuir no carnaval, mas é um investimento grande, de força e energia. Estou cansada e, por enquanto, não estou prevendo nada, apenas vendendo a camisa.”
Patrimônio ameaçado
Como moradora do sítio histórico de Olinda, a artista se diz preocupada com a preservação da cidade. No ano passado, durante as intervenções no carnaval, a Esportes da Sorte ocupou a Henrique Dias, a escola de frevo mais antiga de Olinda. “A cidade está sendo atravessada por uma exploração, um turismo predatório, pela especulação imobiliária, nunca foi tão difícil ser morador,” lamenta.
Ela diz que a atual prefeita da cidade, Mirella Almeida (PSD) “não entende da preservação da história da cultura”. Almeida, que tem um perfil conservador e é ligada a igrejas evangélicas, se elegeu com apoio da governadora Raquel Lyra (PSDB) e do ex-prefeito, professor Lupércio.
“Eles [a prefeitura] veem isso [o carnaval] como uma forma de ganhar dinheiro. Eu lembro dos carnavais onde as próprias famílias faziam a decoração das ruas. Isso está se perdendo.” Este ano, além de ser um dos principais patrocinadores do carnaval da cidade, a Esportes da Sorte patrocina também o desfile do clube de alegoria e crítica do Homem da Meia-Noite, uma das agremiações mais tradicionais de Olinda, reconhecida por trazer conteúdos políticos para seu desfile e que completa 95 anos de existência em 2026. Outras agremiações e bonecos gigantes desfilaram exibindo patrocínios de casas de apostas.
Em Olinda, uma lei municipal estabelece ordenamentos da folia, incluindo a proibição de instalação de som nas ruas do sítio histórico, para privilegiar os desfiles das orquestras de frevo, que devem ser priorizadas.
Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), que trabalha com preservação da memória, Rodrigo Cantarelli diz que a participação de grandes marcas no carnaval olindense não é novidade. “O que as bets estão fazendo é o que as cervejarias já fizeram por muitos anos. Elas [as bets] entraram em um jogo que já vinha sendo feito e dominaram o cenário”, avalia. “Talvez o incômodo maior seja porque propagandas de bets nem deveriam ser permitidas”, considera. No sentido mais da festa e do patrimônio edificado, é lamentável que essas empresas estejam tomando conta de tudo, da mesma forma que os day use”.
No último dia 4 de fevereiro, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou um projeto de lei que impede as bets de fazerem publicidade. O PL também impede apostas que se relacionam com resultados eleitorais. A proposta segue para análise da Comissão de Constituição e Justiça.
