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Filho de fundador da Casas Bahia, Saul Klein vira réu por exploração sexual

por Redação Capital Brasília
15 de maio de 2026
em Brasil, Política
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Filho de fundador da Casas Bahia, Saul Klein vira réu por exploração sexual
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Como noticiado com exclusividade pela coluna de Pedro Lopes, no UOL, na segunda-feira, 11 de maio, a 2ª Vara Criminal de Barueri aceitou parcialmente a denúncia do Ministério Público de São Paulo e tornou Saul Klein, filho do fundador das Casas Bahia, Samuel Klein, réu por exploração sexual de mulheres e por organização criminosa. 

A decisão faz rememorar o esquema de aliciamento que, segundo dezenas de relatos, atravessa gerações e reproduz um modus operandi iniciado pelo patriarca Samuel Klein, o “rei do varejo”, dono da Casas Bahia, como revelou a série de reportagens da Agência Pública em 2020. 

Também o UOL fez uma longa cobertura do caso Saul Klein, com matérias trazendo o relato das mulheres autoras da denúncia, detalhes sobre como funcionava a estrutura criada para recrutar mulheres nas mansões do empresário e o documentário “Saul Klein e o império do abuso”.

Por que isso importa?

  • Processo contra Saul Klein conta com o testemunho de pelo menos 14 vítimas.
  • O empresário é um dos atuais donos do time de futebol Ferroviária, de Araraquara, no interior de SP, e foi candidato (não eleito) a vice-prefeito de São Caetano do Sul, segundo reportagem da Folha de S.Paulo.

As denúncias contra Saul Klein

A denúncia contra Saul Klein abrange desde crimes de favorecimento à prostituição ou exploração sexual de vulnerável até favorecimento à prostituição com violência ou grave ameaça, aliciamento mediante fraude e organização criminosa.

“Os elementos informativos (…) também descrevem ambiente de exploração sexual contínua, com referência à participação reiterada de determinadas intermediárias, padronização comportamental e submissão psicológica das frequentadoras”, diz a decisão, que tramita em segredo de Justiça.

Saul Klein, filho do fundador das Casas Bahia, Samuel Klein
Saul Klein, filho do fundador das Casas Bahia, Samuel Klein

Segundo a decisão, Klein passou a ser processado por participação em organização criminosa, favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança, adolescente ou vulnerável, favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual, com agravantes previstas no parágrafo 2º (como emprego de violência, ameaça, fraude ou outras circunstâncias específicas) e tráfico de pessoas envolvendo vítimas menores.

Ainda segundo a decisão, os depoimentos colhidos nos autos apontaram para a existência de uma “dinâmica reiterada” de recrutamento de mulheres e adolescentes mediante promessas de trabalho em eventos, modelagem e ações promocionais, atuação de intermediárias específicas, condução das vítimas a flats e propriedades ligadas ao investigado, pagamentos em dinheiro, imposição de comportamentos previamente orientados e exploração sexual estruturada em ambiente controlado. 

“Tínhamos que mentir sobre a idade, como se tivéssemos 15 anos”

Em depoimento à Agência Pública, uma dessas vítimas relatou que veio a São Paulo em 2014 atraída por um anúncio de desfile de sapatos internacionais que encontrou no Facebook. Ao chegar ao aeroporto, foi recepcionada por um motorista que a levou, com outra mulher, ao Flat Sequoia, em Alphaville, na Grande São Paulo. Ambas estavam ali pela primeira vez. “Fui enganada. Descobri que era algo com o filho do chefe da Casas Bahia só depois.”

O cachê de R$ 3 mil e a pressão psicológica que sentiu por parte do staff do empresário fizeram Luana* (o nome da vítima foi trocado para preservar sua identidade) ficar para um teste, realizado em outro local, relata. “Tive que me despir para ele, me exibir; estava atordoada, mas ele escolheu a outra moça que estava comigo naquele momento.”

Ela conta que viu Saul fazer sexo anal sem preservativo com a colega. “Ela saiu do quarto chorando porque ele a machucou muito.” Luana recorda que, dias depois, esteve numa festa na mansão de Saul, em outra região de Alphaville, com a presença de 20 mulheres, de sexta-feira a domingo. “A gente acordava, tomava café com ele, descia pra academia, ia na piscina e, à noite, tinha festas temáticas.”

Segundo ela, todas as noites três mulheres eram selecionadas para o quarto de Saul em sua mansão. “No sábado, quando fui selecionada para subir no quarto com ele, comecei a passar mal e a ficar enjoada pela bebida que tinha ingerido durante o dia, mas fui.”

O staff de Saul perguntou se ela estava grávida. “Me falaram que, caso eu achasse que estivesse grávida, eu não poderia sair até retirar o bebê. Se fosse dele ou não, teria que tirar. Falei que não, que estava passando mal por causa da bebida. Mesmo assim, fui obrigada a fazer um teste de gravidez ali mesmo.”

Ao subir ao quarto, Luana foi avisada de que não podia olhar para o rosto do empresário nem falar como adulta. “A gente tinha que falar com voz e jeito de criança. Tínhamos que mentir sobre a idade, como se tivéssemos 15 anos.”

Passar mal, ela diz, a salvou do ato sexual que não queria. “Não deu; estava mal. E uma das garotas, a mais velha no esquema, mandou eu ir dormir no chão do banheiro até o dia seguinte, enquanto ela e outra garota novata, como eu, seguiam com ele na cama.” Luana diz que não é garota de programa e que não faz parte das mulheres que acusaram Saul na Justiça.

O que diz a defesa de Saul Klein

Em nota, o advogado Alberto Zacharias Toron, que representa Klein, informou que “a decisão judicial, em linha com o entendimento já parcialmente adotado pelo próprio Ministério Público, afastou as imputações de estupro, cárcere privado e redução à condição análoga a de escravo”. A defesa disse ainda: “Em relação às acusações remanescentes, o magistrado destacou a relevância da tese defensiva de que a relação mantida entre as partes era livre e consensual, no contexto de uma dinâmica conhecida como “sugar daddy” e “sugar baby” [que são encontros voluntários com vantagens econômicas], ressalvando que a matéria deverá ser aprofundada ao longo da instrução processual. A defesa permanece confiante de que, ao final do processo, todas as acusações serão integralmente rejeitadas”. 

Saul Klein já havia sido condenado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT)  em 2023 a pagar R$ 30 milhões por tráfico de mulheres e exploração sexual. Segundo o MPT, o empresário atraía jovens em situação de vulnerabilidade social e econômica para um esquema de exploração sexual, oferecendo vagas de trabalho como modelo. O valor foi estabelecido para ser pago como danos morais coletivos e revertido a três instituições sem fins lucrativos.

Ilustração de Saul Klein e Samuel Klein, fundador das Casas Bahia

Samuel Klein, pai de Saul, morreu sem condenação criminal

A engrenagem descrita no processo de Saul não é novidade na história da família. O patriarca Samuel Klein, falecido em 2014, foi alvo de acusações semelhantes, reveladas pela Pública. Em abril de 2021, o especial “Caso K” detalhou como o “rei do varejo” teria mantido, por décadas, um esquema de aliciamento de crianças e adolescentes na icônica sede da Casas Bahia, em São Caetano do Sul, além de outros locais em Santos, São Vicente, Guarujá e Angra dos Reis. Em 2024, o podcast “Caso K – A História Oculta do Fundador da Casas Bahia” trouxe mais detalhes e novidades sobre a história – a segunda temporada está prevista para 2027.

O especial da Pública expôs relatos de mulheres que, ainda meninas, foram levadas à presença de Samuel Klein. A investigação demonstrou que a própria estrutura da empresa era utilizada para facilitar os abusos, com a conivência de funcionários que organizavam a logística dos encontros. A cobertura aprofundada da Pública não apenas trouxe o caso à tona, mas também impulsionou desdobramentos legais e legislativos, como a proposta do “PL Caso Klein”, de autoria de Sâmia Bomfim (PSOL), que visa ampliar o prazo prescricional para ações reparatórias em casos de crimes sexuais.

Em março de 2025, a editora da Pública, Mariama Correia, acompanhou a tradicional Marcha das Mulheres do ABC paulista, realizada em São Caetano do Sul. Houve protesto em frente à sede da Casas Bahia, na rua Samuel Klein. O trajeto foi propositalmente escolhido em razão das acusações de abuso infantil e exploração sexual contra o fundador da rede de lojas que inventou o crediário no Brasil. 

“É uma violência para todas as mulheres ter essa rua com o nome de um homem com o histórico dele, que abusava de crianças. Um desrespeito com as mulheres da cidade”, disse Neusa Raineri, coordenadora da Frente Regional do ABC de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, que articulou a marcha junto com vários coletivos feministas das sete cidades da região. 

Atualmente, um abaixo-assinado segue ativo para pressionar a prefeitura de São Caetano pela mudança do nome da rua Samuel Klein para rua 8 de março, em homenagem à luta das mulheres, e do Centro de Especialidades Médicas do bairro, que também recebeu o nome do empresário, para Maria Odília Teixeira, primeira mulher negra a se tornar médica no Brasil.

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