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Os “Rockefellers de Sergipe”

por Redação Capital Brasília
28 de abril de 2026
em Brasil, Política
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Os “Rockefellers de Sergipe”
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“Costumo os intitular de ‘os Rockefellers de Sergipe’”, disse em e-mail à Agência Pública o doutor em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Igor Salmeron sobre a família Franco. Ele é o biógrafo de um dos mais proeminentes membros vivos do clã, o empresário e ex-deputado estadual sergipano Walter Franco, hoje presidente da TV Atalaia, afiliada da Record no estado.

Com registros em documentos oficiais do Brasil desde o século 18, os Franco são uma das “grandes famílias” de Sergipe que influenciaram e ainda influenciam o destino político estadual, mesmo que em menor intensidade comparado ao seu auge, no século 20.

Como muitas outras famílias nordestinas de proeminência, os Franco começaram a acumular poder econômico explorando mão de obra afro-indígena em canaviais e usinas, recebendo terras públicas e outros incentivos estatais. Esta foi uma das constatações do mestre em Geografia Bruno Vieira na sua dissertação, defendida em 2023.

Sua pesquisa levantou dados inéditos sobre o poder financeiro dos Franco a partir da análise do patrimônio que adquiriram. Em entrevista para a reportagem, o pesquisador explicou que, apesar da família possuir terras antes do século 20, foi a partir da década de 1930 que sua fortuna ganhou tração.

Primeiro, houve o fomento do Instituto do Açúcar e Álcool (IAA), fundado por Getúlio Vargas em 1933 na esteira da crise de 1929. Depois, veio o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), criado em 1975 para tentar lidar com os efeitos da crise do petróleo e responsável por colocar de vez o etanol como opção corrente de combustível de automóveis, já que o aumento da produção andou em paralelo com o desenvolvimento de motores que aceitam maiores porcentagens de etanol misturadas à gasolina, os chamados motores flex.

Em conversa com a Pública, Vieira explica que “O poder dos Franco vem das terras. Uma vez que eles já tinham terras, eles tinham os meios de produção – e conseguiram esses benefícios do Estado [fomentos do IAA e Proálcool] por serem empregadores”.

Ele ressalta a contradição entre o argumento de que essas duas políticas públicas foram fundamentais para a autonomia industrial do Brasil – como defendido pelo Ministério de Minas e Energia – quando o principal efeito gerado foi, na sua avaliação, a valorização de propriedades rurais de empresários do setor sucroalcooleiro, aumentando a concentração de grandes áreas nas mãos de poucas famílias.

Apesar da dificuldade para precisar a extensão das terras que os Franco possuem hoje, Vieira conseguiu contabilizar, por meio do cruzamento de dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e do IBGE, 3.970 hectares em nome da Usina São José do Pinheiro. Esse é o principal empreendimento da família e produz açúcar, álcool hidratado e anidro, além de energia elétrica para consumo próprio. A área durante a pesquisa equivale a 5.560 campos de futebol e, de acordo com o geógrafo, trata-se de apenas uma parte das propriedades rurais que os Franco possuem.

A reportagem procurou por Walter Franco e outros membros da família para entrevistas e respostas, mas não obteve retorno.

Denúncia de condições insalubres no corte de cana

As várias fazendas rastreadas por Vieira e que compõem a usina estão distribuídas em cinco municípios sergipanos.

Em um deles, Areia Branca, a cerca de 24 km da capital sergipana, o geógrafo relata ter encontrado, em 2022, um prédio escolar às margens da BR-235 servindo de estalagem improvisada para cerca de 40 trabalhadores do corte de cana, que prestariam serviço para cinco fazendas dos Franco. As condições insalubres do local – fotografadas pelo pesquisador – e os relatos dos trabalhadores sugeriram um cenário de total descumprimento da legislação trabalhista.

Refeitório simples com mesas e bancos azuis; duas pessoas sentadas de costas assistem a uma televisão pequena fixada na parede, nas plantações de cana em Sergipe
Imagens cedidas por Bruno Vieira. Foram publicadas em sua dissertação

“Muitas das vezes, eles não têm carteira assinada, ganham por produção. Pessoas que disseram trabalhar 12h em um dia e ganhar R$ 18”, detalhou. Segundo ele, o espaço era “sem ventilação, [com] banheiros impróprios, camas e colchões amontoados, panelas dentro dos quartos, um refeitório improvisado – tudo improvisado”.

Em suas visitas às plantações de cana entre setembro e novembro de 2022, o pesquisador disse que os trabalhadores com quem conversou eram, em sua maioria, homens negros do interior dos estados da Bahia e Alagoas, recrutados em suas cidades natais pelos chamados “gatos”, a quem os trabalhadores ficavam devendo o transporte para Sergipe, materiais de trabalho e alimentação. “É doído você chegar num ambiente e ainda ver os seus trabalhando como em 1600”.

Outra situação que também encontrou foi a de trabalhadores e suas famílias fixadas em vilas localizadas nos arredores de canaviais dos Franco, às vezes há mais de uma década.

A reportagem tentou contato com a assessoria da usina para saber das condições de trabalho oferecidas aos cortadores de cana, mas não houve resposta.

A Pública também questionou o Ministério Público do Trabalho sobre todos os processos ativos ou com trânsito em julgado contra a Usina e as outras principais empresas da família, que não respondeu.

Ainda que os negócios do açúcar e álcool tenham atravessado gerações da família, atualmente os Franco têm outros tipos de empreendimentos que também são rentáveis e estão diretamente relacionados a “empurrões” do Estado.

Sua cartela de investimentos inclui um shopping; fábricas têxteis, uma delas ex-fornecedora de fardamento para o Comando das Forças Armadas brasileiras; oito veículos de comunicação, dentre eles as duas principais emissoras de TV do estado, cujas concessões foram conseguidas durante a ditadura militar (1964-1985); além de empresas em outros setores.

Para Salmeron, que há anos estuda a história dos Franco, o estado de Sergipe não foi o mesmo depois das ações da família. Em um de seus artigos, mencionado na troca de e-mails com a reportagem, a epígrafe afirma que “Deus criou Sergipe, os Francos, o organizou”.

Dinheiro da cana e o abraço na ditadura

Os Franco entraram no século 20 já ricos, em grande medida pelas fazendas de cana-de-açúcar nos municípios sergipanos de Laranjeiras e Riachuelo, mas também com empresas como a Sergipe Industrial Têxtil, mais conhecida como SISA, aberta em 1882.

O Coronel Albano Pimentel do Prado Franco (nascido no século 19), fundador do Engenho São José, foi quem estruturou as bases do salto financeiro da família via incentivos do Instituto do Açúcar e Álcool.

Para modernizar a indústria da cana no Brasil e conter a preocupação dos donos de engenho com a crise do final da década de 1920, o Instituto distribuiu recursos públicos por meio de financiamentos para que estruturassem usinas, dessa forma dando aos Franco o dinheiro necessário para a fundação da Usina São José do Pinheiro, segundo a dissertação de Vieira.

Mesmo antes dos investimentos do Instituto, Sergipe já figurava como importante produtor nordestino de açúcar, registrando 70 usinas em 1920, bem à frente do segundo lugar, Pernambuco, com 56, segundo a pesquisa de Vieira.

O impulso estatal deu destaque a um dos filhos do Coronel Albano, o médico, empresário e político Augusto do Prado Franco (1912-2003). Em 1939, junto com os irmãos José, Walter e Flávio Franco, Augusto fundou o Banco Comércio e Indústria de Sergipe S/A, por muito tempo por ele administrado. Foi também Augusto quem abriu caminho para a família na mídia, com a criação da Atalaia AM, Rádio Cidade no município sergipano de Simão Dias, TV Atalaia, Atalaia FM, Jornal da Cidade, TV Sergipe e FM Sergipe.

Diagrama de árvore genealógica com nomes e datas, mostrando relações familiares entre membros da família Franco, com influencia em Sergipe.
Árvore genealógica dos Franco mais importantes a partir do Coronel Albano Pimentel do Prado Franco, nascido na segunda metade do século 19.

Em 1967, filiado ao partido pró-ditadura ARENA, Augusto Franco assumiu como deputado federal, e em 1971, como senador. Terminado o mandato no Senado, se torna governador biônico de Sergipe em 1979, enquanto Albano Franco, um de seus nove filhos, ascendia a deputado estadual naquele mesmo ano. Nesse período, troca o ARENA pelo PSD, também pró-regime, e deixa o governo de Sergipe para se eleger deputado federal novamente, cargo que ocupou até 1987.

Até sua morte, em 2003, Augusto Franco veria Albano tomar posse na Assembleia Legislativa de Sergipe, depois no Senado por duas legislaturas e então no governo de Sergipe também por dois mandatos (1995-2003). Do cargo de governador ele foi para o de deputado federal. Tentou se eleger ao Senado pelo PSDB em 2010, mas perdeu e não se candidatou mais. Paralelamente aos cargos eletivos e atividades empresariais, Albano foi presidente da mais poderosa instituição do setor industrial do Brasil, a Confederação Nacional das Indústrias, entre 1980 e 1994.

Albano Franco que tomou posse na Assembleia Legislativa de Sergipe e Michel Temer, dois homens de terno em um ambiente formal; um deles fala ao microfone enquanto gesticula, e o outro sorri ao lado de uma mesa com um copo de água.
Foto em alta resoçução de Albano Franco com Michel Temer em maio de 2018

Os cientistas sociais Fernanda Petrarca e Wilson José Oliveira, respectivamente coordenadora e vice-coordenador do Laboratório de Estudos do Poder e da Política (LEPP) da Universidade Federal de Sergipe e docentes do Departamento de Ciências Sociais da mesma instituição, atribuem a longevidade da família na esfera pública sergipana à sua alta adaptabilidade na escolha de aliados políticos.

Segundo os pesquisadores, eles combinam poder econômico, presença em cargos eletivos e ascensão a postos chave de instituições patronais, além de ocuparem posições de liderança em entidades que representam profissões de áreas como Medicina e Justiça.

Em entrevista à Pública, a professora Fernanda Petrarca, coordenadora do Laboratório de Estudos do Poder e da Política (LEPP) da Universidade Federal de Sergipe e docente do Departamento de Ciências Sociais da mesma instituição, explicou que o estado tem uma peculiaridade. “Diferentemente da Bahia e de Pernambuco, que se constituíram grandes propriedades de terra, você vai observar que na história de Sergipe não tem uma família que tenha dominado sequer um único município sozinha. Ela só consegue dominar na condição de aliada a outras família”, afirma.

É por apresentar essa peculiaridade que os pesquisadores do LEPP optam pelo termo “agrupamento de base familiar” para se referir a grupos de proeminência na política estadual sergipana, caso dos Franco, Amorim, Moura e Mitidieri, do qual vem o atual governador, Fábio Mitidieri (PSD). “Não se pode dizer que há em Sergipe domínio familiar. O que há, e isso varia conforme os contextos, é o domínio de base familiar de alguns agrupamentos. Em alguns momentos um agrupamento domina mais, em alguns momentos ele domina menos”, explica a professora.

Com a abertura do regime militar a partir da década de 1980, os Franco se adequaram ao novo cenário político e embarcaram na defesa da Constituinte. O rebranding democrático passa pela reescrita da história pública de alguns nomes por meio de obras biográficas. Um exemplo recente é o do livro Walter Franco – o homem das diretas, sobre um dos irmãos de Albano Franco, publicado por Igor Salmeron em 2025 e mencionado anteriormente.

Desonerações e impostos municipais não pagos

Em décadas recentes, o papel do Estado na manutenção da fortuna dos Franco continua. De acordo com dados da Controladoria Geral da União (CGU), entre 2015 e 2023, a Usina São José do Pinheiro, da qual Albano Franco é um dos sócios e cujo capital social é de R$ 245 milhões, ficou isenta de pagar mais de R$ 42,3 milhões em impostos. A isenção foi concedida graças a um benefício fiscal da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), que reduz em 75% o Imposto de Renda e adicionais das empresas calculados com base no lucro da exploração.

Também segundo a CGU, a TV Sergipe, afiliada da Globo no estado e administrada pela filha e a viúva de César Franco (irmão de Albano e Walter Franco), teve renúncias fiscais por exibição de horário eleitoral: em 2023 foram R$ 2,98 milhões e no anterior, R$ 6,45 milhões.

Os canais de TV dos Franco também aparecem na lista que o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad liberou em 2024 com a relação de empresas contempladas pelo governo federal na Declaração de Incentivos, Renúncias, Benefícios e Imunidades de Natureza Tributária (Dirbi). Entre janeiro e agosto daquele ano, a TV Sergipe e a TV Atalaia somaram R$ 2,5 milhões em isenções.

Na mesma relação está a SISA, uma das duas empresas têxteis das quais Marcos Leite Franco Sobrinho, filho de Antônio Carlos Franco, é sócio. Ela recebeu R$ 1,6 milhão em subvenção de investimento nos oito primeiros meses de 2024. Marcos, que foi eleito deputado estadual de Sergipe em 1998, aos 21 anos, e reeleito em 2002, ocupou o cargo de secretário estadual de turismo de Sergipe entre janeiro de 2023 e dezembro de 2025. Hoje ele é presidente do conselho administrativo do estado e deu entrevistas falando sobre candidatar-se para a Câmara Federal pelo PSB nas eleições de outubro deste ano.

Junto com o irmão mais novo, Osvaldo Franco, Marcos administra também a ACF Participações LTDA, que consta em 41º lugar na lista dos 200 maiores devedores da Dívida Ativa do Município de Aracaju em 2024, com débito que supera R$ 7,4 milhões. Seis posições depois está a mãe dos empresários, Tereza Augusta Miranda Franco, cuja dívida foi calculada em R$ 6,43 milhões. Tentamos contato com os irmãos e Tereza Augusta Franco por meio de suas empresas, mas não houve retorno.

A Prefeitura de Aracaju foi perguntada sobre como é feita a cobrança das dívidas, se há punições para os devedores e se alguma punição está sendo aplicada à ACF Participações e a Tereza Augusta Miranda Franco. Até a publicação da reportagem, nenhum esclarecimento foi enviado.

O relatório da dívida ativa do município de Aracaju em 2024 informa haver quase R$ 3 bilhões em valores não pagos de IPTU, ISS (Imposto Sobre Serviços) e outras tributações. Segundo o documento, quase metade dessa cifra refere-se à cobrança de juros.

Fardas militares e aluguéis milionários para órgãos da justiça

Nem só de isenções fiscais e dívidas em aberto com o poder público vivem as principais empresas da família Franco. Entre 2012 e 2020, a filial da SISA no município de Riachuelo recebeu R$ 50,9 milhões em recursos federais para a manutenção e fornecimento de fardamento para o Comando do Exército – que concentrou os pagamentos – Marinha e Aeronáutica. A empresa declarou à Receita Federal capital social de R$ 157,4 milhões.

Já a matriz da SISA, localizada em Aracaju, recebeu um total de R$ 359 mil em recursos federais referentes a seis licitações entre 2018 e 2019 com foco no suprimento de fardamento para o Centro de Obtenção da Marinha no Rio de Janeiro.

Outra fonte de renda dos irmãos Marcos e Osvaldo Franco relacionada a órgãos da segurança pública é o aluguel, desde 2005, do prédio que abriga a sede da Superintendência da Polícia Federal em Sergipe, que está em nome da empresa Comercial Nortista LTDA. O termo aditivo mais recente (Extrato de Termo Aditivo Nº 9/2025 – UASG 200344, registrado no Diário Oficial da União), de 01 outubro de 2025, é no valor de R$ 7,5 milhões por seis meses, sendo que o imediatamente anterior, com duração de um ano, foi no valor de R$ 1,5 milhão.

Questionada sobre a desproporcionalidade no valor pago por seis meses de aluguel à Comercial Nortista, a assessoria da Superintendência da Polícia Federal em Sergipe não respondeu.

Já o Extrato de Contrato nº 14/2025 – UASG 200344, assinado em 02 de outubro de 2025, tem como objeto a locação de imóvel “para abrigar as instalações da Superintendência Regional da Polícia Federal em Sergipe” de 02 de outubro de 2025 a 02 outubro de 2028 por R$ 6.447.168,00, o que dá R$ 179 mil mensais.

A Pública tentou contato com Marcos Franco inclusive por redes sociais, mas ele não respondeu sobre se possui outros imóveis em Sergipe alugados para órgãos da segurança e o porquê de valores mensais tão altos.No início de 2023, foi impetrado um pedido de recuperação judicial para a SISA e a Comercial Nortista devido a uma “curva descendente de faturamento […] com perda de capital de giro e dificuldade na aquisição de insumos, ocasionada pelo aumento do preço do algodão”. Segundo dados da Junta Comercial de Sergipe atualizados em abril de 2026, as duas empresas continuam em recuperação judicial.

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