A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de recolher um lote de produtos da marca Ypê no dia 7 de maio ultrapassou os debates sobre segurança sanitária e invadiu os perfis de políticos nas redes sociais. A suspensão ocorreu após uma vistoria na fábrica da marca em Amparo, interior de São Paulo, por risco de contaminação microbiológica do lote terminado na numeração 1 de uma série de produtos da empresa.
A Anvisa suspendeu o recolhimento após a empresa entrar com um recurso administrativo no dia 8, mas manteve a posição de não recomendar aos consumidores a utilização dos produtos. O que parecia se tornar uma disputa judicial acabou transformada em uma briga política nas redes sociais.
Até a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro resolveu se manifestar. Apoiadores da família Bolsonaro passaram a acusar o governo federal de perseguição, uma vez que os donos da marca Ypê fizeram doações à campanha de reeleição de Jair Bolsonaro em 2022. O vice-prefeito de São Paulo, Coronel Mello Araujo, defendeu o uso dos produtos em vídeos publicados em seus perfis nas redes sociais.
Em pouco tempo, vídeos viralizaram com pessoas, supostamente, passando detergente Ypê, supostamente do lote não recomendado pela Anvisa, no corpo, no cabelo e até bebendo o produto.
Para a infectologista e epidemiologista Luana Araujo, o debate político sobre questões relacionadas à saúde não é ruim, “é interessante, porque faz com que as pessoas aprendam um pouco melhor sobre os mecanismos de autoproteção que a sociedade desenvolve”. Mas ela chama a campanha de políticos incentivando o uso de um produto em suspensão pela Anvisa de “desinformação dolosa, utilizada como ferramenta contra a saúde pública”. E ainda afirma que tal comportamento “deveria ser tipificado como um crime contra a saúde pública”.
A médica defende a decisão da Anvisa e salienta que a suspensão e recolhimento de produtos pela Anvisa é uma ação “corriqueira”. “Só neste ano foram mais de 30 produtos que a Anvisa suspendeu ou interrompeu, definitivamente, a produção, por questões fabris”. Além disso, a epidemiologista alerta sobre os riscos à saúde que afetam essas pessoas que estão se expondo aos produtos na pele.
“Independentemente de isso estar ou não contaminado, essas formulações não foram feitas para serem utilizadas por outras vias e para outras intenções que não sejam a da higienização de objetos. Então, quando você passa isso na pele e, meu Deus, inacreditavelmente, passa isso numa mucosa, na boca, por exemplo, ou nos olhos, você tem um risco químico importante de alergia ou de queimaduras reais. Leia os principais trechos da entrevista a seguir.
Quais são os riscos à saúde pública quando uma questão como uma possível contaminação de produto se torna um debate político?
Na verdade, acho que o problema não é ser um debate político. Eu acho até que o debate político é interessante, porque isso faz com que as pessoas aprendam um pouco melhor sobre os mecanismos de autoproteção que a sociedade desenvolve.
O problema é quando essas pautas são sequestradas por mesquinharias político-partidárias, porque estas só têm como interesse a segregação, a criação de uma falsa identidade, a manipulação de determinados grupos. Isso faz com que a base da saúde pública, que é exatamente falar para todas as pessoas, tentar diminuir o risco, promover a saúde da população como um todo, tenha um alcance muito menor.
Isso resulta em um aumento de risco heterogêneo dentro da população, o que significa que o sistema tem que se preparar para muitas coisas diferentes, ao mesmo tempo. Isso é muito difícil de se fazer porque você não tem um recurso que serve para tudo, para todas as possibilidades, ao mesmo tempo.
Então, a gente vê aumentos de riscos, aumento de dispêndio de dinheiro público. A gente vê repercussões clínicas, propriamente ditas. Esta desinformação dolosa, utilizada como ferramenta contra a saúde pública, em termos de benefício próprio, seja ele financeiro ou político, deveria ser tipificada como um crime contra a saúde pública. Infelizmente a gente ainda não tem isso.
Na sua carreira como médica, a senhora já viu esse tipo de postura atrapalhar efetivamente um tratamento de saúde?
Infelizmente, sim. Essa é uma história talvez tão antiga quanto o próprio exercício médico, mas certamente isso cresceu e tomou uma outra proporção a partir da pandemia da covid-19. A gente via muito antes disso, por exemplo, pacientes vivendo com HIV e AIDS sendo convencidos por lideranças religiosas a abandonarem o tratamento. Isso era sempre um custo muito grande para toda equipe, e fazer com que a pessoa voltasse a entender a importância daquela adesão [ao tratamento].
Mas, certamente depois da covid-19, a vacinação, que já era um tópico de grande disputa nesse sentido, se tornou a maior vítima dessa desinformação dolosa, para benefício de grupos específicos. A vacina contra o HPV sofreu uma campanha muito grande, e sofre ainda, de grupos políticos religiosos, fazendo com que as nossas meninas e meninos tenham um risco aumentado de desenvolver câncer de útero, de pênis, de vagina, de ânus, de boca, o que é absolutamente inacreditável e trágico.
A própria vacina contra a covid-19, que a gente até hoje tem uma cobertura muito baixa. A gente vê pessoas morrendo por uma doença imunoprevenível, o que também é um absurdo, mas a gente também vê isso em outras doenças que não são, exatamente, doenças infecciosas.
A gente vê hoje, por exemplo, pessoas sendo convencidas a tomar água com sal para tratamento de hipertensão. Ou mulheres convencidas a usar implantes de testosterona, ignorando o risco absurdo de eventos cardiovasculares, principalmente nessa população. E endossadas, ainda que subliminarmente, por agentes de poder. É muito complicada essa relação entre poder, política, dinheiro, interesses. A saúde pública sempre sai perdendo nesse sentido.
No caso específico do detergente Ypê, o recolhimento do lote foi apontado pela Anvisa por risco de contaminação pela bactéria Pseudomonas aeruginosa. Quais são os riscos reais diante do contato com essa bactéria?
A Pseudomonas é uma bactéria que a gente considera ubíqua, quer dizer, ela está presente em diversos sítios. Ela está presente no solo, na água, nos animais, nas plantas, na gente. A simples presença dela não significa a chance maior de infecção. Assim como a simples presença de qualquer outra bactéria também não significa. O problema é quando essas bactérias encontram uma porta de entrada em qualquer organismo e, é claro, quanto mais fragilizado esse organismo, maior a chance de isso se tornar uma infecção, e essa infecção ser potencialmente grave.
No caso da Pseudomonas, ela ainda tem outras características que são importantes. Elas gostam muito de umidade, então de solo úmido, de rachaduras umedecidas, de coisas enferrujadas. Elas gostam de material orgânico em decomposição, da água propriamente dita, então reservatórios, canos, substâncias líquidas à base de água, elas gostam muito de estar por ali.
E ela tem uma baixa exigência nutricional, ou seja, não precisa ter um meio super rico para proliferar. Além de tudo, ela tem um comportamento que é muito interessante em termos coletivos. Então, quando ela se junta a outras bactérias, a outras Pseudomonas, elas passam quase que a se comportar como um único micro-organismo, ou melhor, um único organismo multicelular. E elas são capazes de produzir o que a gente chama de biofilme, uma matriz de substâncias que as protege de agentes químicos externos ou de ações mecânicas pouco intencionais. Então, é muito difícil se livrar da Pseudomonas, a não ser que você tenha um controle de qualidade rígido e executado o tempo inteiro.
Além disso, ela também tem, tanto intrinsecamente, quanto pela pressão seletiva sofrida ao longo do tempo, pelo uso de antimicrobianos – tanto o uso adequado quanto o uso inadequado – um perfil de resistência a essas medicações bastante importante. Então, a população em geral, sem porta de entrada, saudável, jovem, provavelmente não vai ter grandes problemas com o consumo desse tipo de substância contaminada.
Entretanto, [não é o caso] daqueles jovens que, eventualmente, tenham uma porta de entrada, um corte, ou uma infecção urinária, ou, principalmente, os idosos, os imunossuprimidos, aquelas pessoas mais fragilizadas. Essas pessoas, principalmente quando hospitalizadas, têm múltiplas portas de entrada para uma bactéria que está presente em vários níveis e tem um perfil de resistência difícil. Muito difícil.
Então, o tratamento dessas infecções se torna cada vez mais complexo nessas pessoas. É esse o risco.
A Anvisa agiu bem em informar a população do risco?
Sim, ela fez bem, mas ela sempre faz isso; isso não é novo, isso é corriqueiro. E veja, só neste ano já foram mais de 30 produtos que a Anvisa suspendeu ou interrompeu, definitivamente, a produção por questões fabris.
De novo, isso [faz parte] da tecnicidade, da postura técnica e da comunicação que a Anvisa já faz. O problema que aconteceu [no Caso Ypê] foi esse transbordo por outras intenções, não por uma falha técnica da Anvisa, ou qualquer coisa nesse sentido.
Sobre a gravação de vídeos de pessoas que passaram o detergente no corpo, no cabelo e na boca, mesmo sem bactéria, quais problemas de saúde essa ação pode ocasionar?
Independentemente de estarem ou não contaminadas, essas formulações não foram feitas para serem utilizadas por outras vias e para outras intenções que não sejam a da higienização de objetos. Então, quando você passa isso na pele e, meu Deus, inacreditavelmente, passa isso numa mucosa, na boca, por exemplo, ou nos olhos, você tem um risco químico importante de alergia ou de queimaduras reais.
Não tem a menor lógica, mas veja, isso é tão primário que fica até difícil acreditar que a simples explicação sobre o assunto vai ter algum tipo de repercussão positiva nesse sentido. O problema aqui, certamente, não é a comunicação. Aqui [o problema] é essa, com o perdão do trocadilho, “lavagem cerebral” que é feita nas pessoas e que faz com que elas tomem atitudes completamente contraintuitivas, contra a lógica e que podem colocá-las em risco.
Quer dizer, para além do risco aumentado de contato com uma substância contaminada, esse tipo de manipulação da informação pública também coloca as pessoas sob outros riscos como esses que a gente está comentando.
A senhora vê uma relação entre a postura dessas pessoas e aquelas que se negaram a tomar vacina contra a covid-19, ou mesmo chegaram a desacreditar a pandemia?
Infelizmente, esses grupos parecem ser os mesmos. Veja só, tanto aqueles que desinformam dolosamente, quanto aqueles que sofrem a desinformação, que consomem a desinformação. Ou seja, de lá para cá, a gente não conseguiu melhorar a literacia [capacidade de interpretar informações] básica, e não estou falando nem em saúde ou em ciência, mas a literacia básica, que faz com que as pessoas consigam desenvolver um senso crítico apropriado para o seu momento, para a sua idade, enfim, para o seu desenvolvimento. A gente não conseguiu fazer isso.
Ao mesmo tempo, a gente não conseguiu coibir que os desinformadores contumazes, quase criminosos, fossem responsabilizados por isso. E eles se colocam de uma maneira muito franca e orgulhosa, quase. Um orgulho de uma ignorância monumental, mas eles se colocam dessa maneira nas redes, e isso é muito trágico, muito dramático. Mostra que, se a gente não tomar ações que sejam profundas nesse sentido, reformas educacionais reais, reformas legislativas reais, a gente só vai mudar a arena desse nosso combate.
O que nós, como sociedade, ainda não aprendemos sobre a diferença entre informação científica e de interesse para a saúde pública e narrativas ideológicas/políticas?
A primeira coisa é que a gente ainda não entendeu que a informação é um determinante social de saúde, o acesso à informação de qualidade. E a gente ainda não adaptou a nossa comunicação pública a este universo do século 21, considerando as limitações morais e éticas às quais nós estamos submetidos, e às quais as outras pessoas, algumas outras pessoas, não estão submetidas.
Então, esse jogo já é mais difícil para quem faz saúde pública de qualidade versus quem está ali por interesse próprio, seja ele político ou financeiro. Além disso, a gente é vítima também de uma estratégia muito antiga, que é ‘dividir para conquistar’. Quanto mais fragmentada está uma sociedade, mais fácil é você jogar um grupo contra o outro. E mais próximo de uma ideia de sebastianismo, de um líder hiperpopulista, você fica.
Isso tem sido utilizado em várias frentes de conhecimento. Mas, na saúde, isso tem um preço muitíssimo alto e a gente ainda não se posiciona em termos legais, em termos jurídicos, para lidar como deveríamos.