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Saída do governo em Gaza não significa que Hamas pretende abrir mão de armas

por Redação Capital Brasília
8 de julho de 2026
em Brasil, Política
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Saída do governo em Gaza não significa que Hamas pretende abrir mão de armas
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O Hamas anunciou nesta segunda-feira (6) o que pode ser sua decisão mais importante dos últimos 20 anos: o grupo armado palestino disse que vai abrir mão de participar do consórcio responsável pela administração civil da Faixa de Gaza. Isso não significa que o Hamas deixará de existir como tal ou que vá depor armas, mas pode indicar uma luz, ainda que muito tênue, no fim do longo túnel de tragédias que vêm marcando a relação entre palestinos e israelenses na região.

Por enquanto, o que existe é apenas um anúncio. A manifestação de intenções do Hamas precisa ainda ser implementada na prática, com a anuência de pelo menos três atores envolvidos nessa questão.

O primeiro deles é o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG, na sigla em inglês), um órgão teoricamente tecnocrata, criado para gerir a reconstrução do território palestino, de maneira tutelada. Os outros dois atores implicados, que precisam aceitar a proposta do Hamas, são Israel, que ocupa hoje militarmente a maior parte da Faixa de Gaza, e os Estados Unidos, que propuseram o acordo de paz que vem sendo implementado desde outubro de 2025, mesmo que com muitas idas e vindas, violações e desconfianças mútuas.

O NCGA reagiu com cautela e Israel, com incredulidade, enquanto os Estados Unidos mantiveram silêncio, pelo menos até esta terça-feira. 7 de junho. “No fim, nossa avaliação vai se guiar por ações, não por promessas”, disse o comitê em comunicado. “Isso permitiria ao Hamas continuar oprimindo a população de Gaza enquanto mantém sua luta jihadista contra Israel”, reagiu o ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Sa’ar. Donald Trump certamente está em conversa com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, a quem deve receber na Casa Branca provavelmente no início de agosto.

As conversações entre todas essas partes vêm sendo mantidas oficialmente em duas frentes simultâneas: uma, no Chipre; outra, no Cairo. O Egito é o principal mediador desta questão no Oriente Médio, mas são os Estados Unidos os verdadeiros arquitetos do Conselho da Paz, órgão criado no fim do ano passado para negociar o fim do conflito e administrar a reconstrução de um território palestino cuja devastação é tão profunda e extensiva que chegou a motivar uma acusação de genocídio (intenção de exterminar um povo), movida pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça.

Golpe e controle

O Hamas assumiu o controle total da Faixa de Gaza em 2007, um ano depois de ter vencido as eleições parlamentares locais do ano anterior, com 44% dos votos. O grupo rival Fatah não só foi derrotado nas urnas como também foi expulso à força, em seguida, na sequência de uma série de conflitos fratricidas.

Desde então, o Fatah – grupo ligado ao atual presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas – ficou com o controle político da Cisjordânia, enquanto o Hamas manteve o controle da Faixa de Gaza. Esses dois territórios, que são geograficamente separados por um trecho de Israel, compõem o que viria a ser um futuro Estado palestino, se um dia a chamada “solução de dois Estados” vier a ser implementada.

Aos olhos de Israel, dos Estados Unidos e da Europa, Abbas é o interlocutor local mais credenciado a liderar a formação de um futuro Estado palestino. Mas os próprios palestinos consideram a ANP incompetente, disfuncional e corrupta, além de verem em Abbas um líder excessivamente passivo diante das violações que Israel comete contra os palestinos na própria Cisjordânia, sem contar na Faixa de Gaza.

É em contraposição às insuficiências de uma ANP disfuncional e sem credibilidade interna que o Hamas cresce, se firmando como um grupo rebelde, indócil, aguerrido e confrontador, a ponto de eliminar os rivais do Fatah e da ANP da Faixa de Gaza e, em seguida, partir para uma ação até então inconcebível contra Israel: os ataques de 7 de outubro de 2023.

Os que defendem o Hamas veem em ações como a do 7 de outubro uma resposta violenta legítima, inevitável e justificável diante do bloqueio ilegal que Israel exerce sobre os palestinos na Faixa de Gaza, como se essa fosse a única reação possível para uma população que vive há muitos anos confinada em um espaço exíguo, desprovida de acesso adequado à água, alimentos, moradia, saúde, emprego e, sobretudo, soberania e autodeterminação.

Já os críticos classificam o Hamas como um grupo terrorista que deu um golpe de Estado dentro de Gaza contra seus rivais mais moderados e implementou uma ditadura violenta contra a própria população, se dedicando a desviar os escassos recursos de combustível e de infraestrutura para a construção de foguetes com os quais fustigam os israelenses, além de perverter o uso de hospitais e de se mesclar deliberadamente com a população civil palestina como forma de aumentar o número de vítimas e desgastar a imagem de Israel perante a opinião pública mundial.

Evidentemente, são dois pontos de vista distantes entre si e absolutamente irreconciliáveis. Por isso, é tão significativo que o Hamas tenha anunciado agora a disposição de abrir mão de participar da administração civil da Faixa de Gaza, em favor de outros atores locais e internacionais que tenham maior prestígio e credibilidade para trabalhar na reconstrução. Fazendo um paralelo com o corpo humano, é como se esse recuo do Hamas pudesse favorecer uma desinflamação do nervo, para possibilitar alguma cura em seguida.

Quando Israel deu início à resposta militar ao atentado de 7 de outubro, a intenção proclamada era a de acabar definitivamente com a capacidade militar do Hamas e extinguir o protagonismo político que o grupo tinha sobre a administração de Gaza. Se o Hamas de fato recuar em sua participação no grupo que pretende administrar o território palestino agora, então pelo menos um desses dois objetivos terá sido atingido.

Já no que diz respeito à obliteração da capacidade militar do Hamas, o tema é mais complexo. De um lado, é certo que os últimos três anos de campanha militar massiva de Israel contra a Faixa de Gaza debilitaram consideravelmente as capacidades ofensivas do Hamas. O grupo já não dispõe do mesmo arsenal de foguetes com o qual alcançava residências civis no território israelense. Mas isso não significa que o Hamas tenha deixado de existir, nem que seus membros tenham sido liquidados.

De acordo com analistas do jornal israelense Haaretz, uma das publicações mais progressistas e menos refratárias à questão palestina dentro de Israel, representantes do Hamas teriam indicado durante as negociações no Cairo a disposição de abrir mão de seu potencial ofensivo, mas não de abrir mão de todas as armas de uso individual de seus membros, como pistolas e fuzis. Além disso, esses líderes teriam interesse numa espécie de anistia que possibilitasse a incorporação de seus homens numa futura força de segurança palestina na Faixa de Gaza.

Enquanto nada disso se torna realidade, o plano de paz segue sendo implementado a duras penas. Uma das questões complexas que permanecem sobre a mesa é onde e como construir campos de deslocados que possam abrigar temporariamente os milhares de palestinos que perderam suas casas, sem que isso resulte na formação de guetos espremidos pela ocupação israelense, nem tampouco em bolsões controlados pelo Hamas, nos quais o grupo armado acabe se servindo da ajuda humanitária destinada à população civil.

Entre as muitas ideias disponíveis, uma é especialmente ousada: a criação de uma força multinacional que afaste tanto os militares israelenses quanto os membros do Hamas, zelando por uma zona segura para os civis palestinos, inicialmente na região de Rafah, no extremo sul da Faixa de Gaza, fronteira com o Egito. No início, a Indonésia aceitou enviar efetivos para compor essa força, mas o país asiático acabou recuando. O Marrocos tomou então a dianteira, mas ainda não enviou soldados porque depende da negociação de um acordo de imunidades e prerrogativas para seus homens, que ainda não foi assinado com Israel.

Com isso, o bloqueio à Faixa de Gaza segue vigente, com consequências especialmente preocupantes, à medida que se aproxima a temporada das chuvas, que tem início em novembro, e o frio, que começa em dezembro e se estende até março, com temperaturas baixando para menos dos 10°C.

Há um consenso sobre a necessidade de entrada de mais ajuda humanitária em Gaza, mas Israel – que exerce um bloqueio militar sobre o território palestino – reluta em permitir, sobretudo, o ingresso de materiais que podem ter seu uso civil pervertido para uso militar, como é o caso de certos materiais de construção e de casas pré-fabricadas, além de combustíveis, painéis de energia solar e certos equipamentos hospitalares.

O debate pontual sobre o recuo do Hamas e a formação de um governo transitório e tutelado para a reconstrução da Faixa de Gaza é, no entanto, apenas um retrato limitado de um problema mais abrangente e complexo, cuja solução nunca pareceu tão distante: a criação de um Estado palestino com fronteiras definidas e reconhecidas internacionalmente, tal como foi feito em relação a Israel, em 1948.

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Redação Capital Brasília

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